Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Reforma autárquica e outros tristes fados

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2011-12-05 às 06h00

Artur Coimbra

1. Desde que tomou posse, o governo anda a vender aos portugueses a peregrina ideia de que a reforma autárquica é inquestionável e que faz parte da tralha legada pela tróica, porque, fundamentalmente, importa cortar no “insustentável” despesismo das juntas de freguesia e das câmaras municipais. A lógica de promover, voluntariamente ou pela força, a agregação de freguesias, visando a redução drástica do seu número (actualmente 4259), foi apregoada como necessidade vital no quadro do ajustamento financeiro, visando a redução do défice orçamental. Até produziram uma coisa chamada “Documento Verde da Reforma da Administração Local”, como se fora algo comestível, ou tivesse a ver com o ambiente!...
Eis senão quando, inopinadamente, um destes dias, vem um pândego secretário de estado, no caso da Administração Local, admitir que a redução do número de freguesias “não vai significar uma poupança de dinheiro” e que as transferências do Orçamento de Estado para as freguesias se vão manter “estáveis”. Ou seja, é necessário que algo mude para que tudo fique na mesma…
Mas estamos a brincar, ou quê? Então, desencadeia-se uma tempestade a nível nacional, proclamando a imperiosidade de reformar as autarquias, acabando com mais de um milhar de freguesias, porque era urgente amealhar uns cobres e afinal vem a apurar-se que não há poupança nenhuma?
Não se brinca com os sentimentos das populações do Portugal profundo, que vêem no presidente da Junta de Freguesia o interlocutor mais à mão do poder de resolver os problemas que o quotidiano, um buraco numa estrada, uma lâmpada que fundiu, um, atestado que é necessário, uma informação que só ele pode facultar.
Já roubaram à maior parte das freguesias a sua identidade: a escola, o posto médico, o posto dos correios e até, em muitos casos, o padre, o que, aliado à inexistência de oportunidades, motivou a fuga da população para outras paragens, internas ou externas. Não lhes saqueiem agora a alma, que é saber que dispõem de limites territoriais e detém o soberano poder de eleger, periodicamente, o leque de “homens bons” que colocam o seu melhor saber para resolver os problemas da comunidade. Ou seja, o “poder de proximidade”, coisa que os senhores instalados no Terreiro do Paço não conseguem atingir, na sua mio-pia “troiquista”…
Se a reforma não poupa dinheiro, que necessidade é que tem de ser feita, para lá da “provocação” assumida pelo governo e que se revela absolutamente estulta e despida de sentido? Se o Poder Local está a funcionar, se é hoje o reduto mais sólido da confiança das populações, só pelo triunfo da imbecilidade se pode aceitar que nele se mexa. Mexa o governo nas grandes fortunas, nas PPP, no BPN, na Merkel e no raio, e deixe as freguesias e os municípios em paz!...

2. O nosso fado foi classificado pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade.
E justamente o foi, porque é da matriz do fado - “símbolo da identidade nacional” - ser o espelho da tristeza de um país, das suas grandezas e sobretudo das suas misérias, das suas desditas e adversidades.
Francamente, a decisão da classificação, não poderia ter acontecido em altura mais adequada e ajustada ao momento.
O nosso fado, hoje, tem a ver com o lado mais sombrio da noite, com o rosto lunar da existência, com a violência do quotidiano, a violência governamental sobre todo um povo, o saque material e moral sobre quem trabalha ou trabalhou toda uma vida.
O nosso fado, hoje, é ter de aturar a música gananciosa que nos dão os especuladores financeiros que dão pelo nome de “mercados”, bem como essa aberração chamada tróica e o anacronismo do piedoso e fiel servidor de Merkel e Sarkozy que nos coube na rifa, Pedro Passos Coelho.
O nosso fado, hoje, é empobrecer alegremente e bater palmas aos protagonistas da colectiva desgraça, como se fora promessa, destino ou inevitabilidade ter de aceitar o que de modo algum é admissível.
O nosso fado é a saudade, a desventura elevada a hino nacional, o choro das guitarras, as “almas vencidas” pelo desânimo, mas também a força da indignação, da revolta, do descontentamento e da certeza de que há limites de dignidade que não podem ser ultrapassados, por muito que queiram os serventuários de uma Europa em decomposição.
De qualquer forma, ficamos muito orgulhosos por um longo percurso musical, agora premiado internacionalmente e que passa por artistas como Alfredo Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Mariza, Camané, Aldina Duarte, Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Ana Moura e, mais recentemente, a novíssima geração do fado, Carminho, Ricardo Ribeiro e Cuca Roseta.
Um grande bem-haja a todos os autores e intérpretes do fado que nos elevam dentro e fora do país, contribuindo para o acréscimo da nossa auto-estima, contrariamente aos que têm por vocação deprimir-nos, explorar-nos, infernizar a vida de todos nós!...

3. O fado do orçamento: afinal, contrariando o que o governo garantiu a pés juntos durante semanas, sempre havia “folga” no orçamento, que permitiu suavizar os sacrifícios para milhares de funcionários e pensionistas. De onde se conclui que Passos Coelho e Vítor Gaspar mentiram, perdendo o que restava da credibilidade que alguns poucos ainda lhes reconheciam e acederam à demagogia de dificultar ao máximo para depois ceder o mínimo. Para um governo com escassos cinco meses de vida, é deplorável esta imagem de puro ziguezague eleitoralista.
É bem verdade que os políticos são todos da mesma laia!...

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