Correio do Minho

Braga, terça-feira

Reencontro

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Conta o Leitor

2011-08-16 às 06h00

Escritor

Por Isabel Gonçalves

Já poucos convidados resistiam. As horas iam altas e o dia tinha sido cansativo. No meio de uma pista quase despida, os recém-casados balançavam serenamente, finalmente entregues a um mundo só deles.

De telemóvel em riste, uma figura abandonou a mesa. Ficaram os dois. A separá-los, 50 cm de cadeira e 10 anos de ausência. Decidiu deixar de a mirar pelo canto do olho, como fizera durante toda a festa. Nem parecia que tinham partilhado tantos momentos e descobertas, num tempo que agora lhe parecia distante demais. Evitaram-se o tempo todo, como se numa mirada mais prolongada ou até mesmo num cruzamento de olhares, todos os sentimentos adormecidos ganhassem o seu espaço novamente.

Ela levou a flute aos lábios, nesse preciso instante. Deu um pequeno gole e baixou o copo, segurando-o entre os dedos. Cruzou a perna e apoiou a cabeça numa das mãos. Ligeiramente sentada de lado, acompanhava o movimento dos noivos pelo ladrilhado da pista. Cingiam-lhes os pés umas sandálias pretas com apontamentos em prata. Foi por aí que começou a percorrer-lhe o corpo. E sentiu todas as dúvidas de tempos passados aflorarem-lhe, de novo, à mente. Como seria tocar-lhe a pele? Como seria sentir o seu corpo arrepiado pelo desejo em contacto com o dele? Chegou-lhe ao rosto. Mantinha a doçura que lhe conhecera, mas os olhos eram tristes. Faltava brilho no sorriso que endereçava ao casal dançante, mas nunca sinceridade.

Uma voz interrompeu-lhe a cadeia de pensamentos.

-Tenho de sair. Problemas na empresa.
-A esta hora? E num feriado?
-Uma multinacional nunca se compadece com lazer e compromissos. Aqui até pode ser hora de dormir, mas há locais no mundo em que há pessoas a acordar. Bem, chega de explicações. Tenho de ir. Vens?

O tom de voz irritava-o. Agora mais do que nunca.

-Fico. Boa sorte lá no que quer que seja que tens de resolver.
-A sorte é para os fracos - garantiu, a esvaziar o copo de líquido borbulhante com um só trago. - Eu arranjo soluções. E tu arranja mas é maneira de ires para casa. Adeus.

Ficou a vê-la afastar-se. Questionava-se sobre o que o tinha atraído naquela mulher fria e arrogante. Até deixar de a alcançar visualmente, não conseguiu encontrar um único motivo. Uma parte do cérebro gritava-lhe agora que ao seu lado estava, uma vez mais, a oportunidade de fugir da mediocridade e voltar a ser feliz. Voltar, sim. Como o fora há uma década atrás. Embora na altura não o soubesse. Tinha uma outra oportunidade. Quem sabe, a derradeira.

Ela parecera não ter reparado na cena entre os dois. Quando deu por si, tinha-se levantado e transposto os 50 cm que os apartavam. No que tocava aos 10 anos, já não seria tão facilmente realizável.

-Podíamos ser nós - conjecturou, numa voz que lhe saiu rouca, murmurada, mas que teve o condão de a fazer despertar da letargia. Como se a voz dele, ainda que no mais fino sopro, fosse o toque de alerta que a despertaria.
-Desculpa? - respondeu, esperando que ele não tivesse reparado no arrepio que lhe sacudira o corpo e ganhando tempo antes de, por fim, se entregar ao azul profundo dos seus olhos.

Sentiu que o mundo à sua volta suspendera. O tempo tivera a missão de refinar cada contorno do seu rosto. Mas o mar do seu olhar mantinha-se inalterado. Perguntou-se o que pensaria ele sobre ela naquele instante e constatou que tinha medo da resposta. Ele levou a mão direita ao nó da gravata, alargando-o com um gesto masculino e sensual. Pigarreou e voltou a afirmar.

-Podíamos ser nós.
-A fazer o quê? - questionou, a medo.
-Podíamos ser nós, hoje, a deslizar por esta pista, nos braços um do outro.

Havia honestidade nas suas palavras. Ao encará-lo novamente, também a viu espelhada nos seus olhos...

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