Correio do Minho

Braga, sábado

Redes sociais, o bem e o mal

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2018-01-28 às 06h00

Artur Coimbra

1. Há apenas década e meia o mundo não estava ligado, como hoje se proclama, mas havia sobrevivido milhões de anos sem a parafernália de redes, aplicações e equipamentos que justamente aproximam as pessoas mas que também as afastam, que criam calor mas também distância e impessoalidade, que dão origem a reencontros mas também a afastamentos e à ruptura de ligações afectivas. Que podem ser utilizadas para fazer o bem mas também para promover o mal.
Há apenas 15 anos não havia os dispositivos comunicacionais que hoje fazem parte integrante do nosso quotidiano e sem os quais milhões de pessoas já não passam.
Falamos, por exemplo, de redes sociais como o Facebook, o Twitter, o Spotify, o Instagram, o WhatsApp, entre outras.
As redes sociais ocupam hoje um lugar às vezes demasiado central e indisputável na vida das pessoas, assustadoramente dependentes dessa omnipresença nos computadores, nos smartphones, nos iPads.
Como sublinhava no domingo Hugo Daniel Sousa, em oportuna crónica no jornal Público, com o título as redes sociais são fantásticas. As redes sociais são perigosas, os números de utilizadores activos de algumas delas são impressionantes: o Facebook tem dois mil milhões de utilizadores activos, o Facebook Messenger 1300 milhões, o Whatsapp 1200 milhões, o Instagram 800 milhões.
O cronista vai enumerando justamente ao longo do artigo os benefícios e malefícios das redes sociais, que se resumem a seguir.
As redes sociais são fantásticas, porque nos ligam (gratuitamente ou a um preço reduzido) àqueles de quem mais gostamos. Conseguimos, de forma fácil e prática, falar ou trocar imagens com familiares e amigos que estão no outro lado do mundo.
São fantásticas, porque democratizaram o espaço público. Já não é apenas uma elite que tem voz, mas o povo, todos nós. E até já deram origem a vários movimentos de indignação colectiva, um pouco por todo o mundo.
As redes sociais são fantásticas, porque nos dão a conhecer o melhor do ser humano e projectos que noutras circunstâncias não veriam a luz do dia.
São fantásticas, porque são úteis, como diversão, como instrumento de trabalho e como rede de contactos.
Todavia, são também perigosas, porque lhes demos um poder desmedido. Sabem quem somos, onde estamos, do que gostamos, de quem somos amigos. Demos-lhe informação valiosa, que gera milhões em receitas publicitárias.
São perigosas, porque se tornaram campo aberto para a mentira, a manipulação, as notícias falsas, a demagogia e, em particular, para o fenómeno da indignação colectiva acéfala, em que o ruído colectivo abafa a racionalidade dos argumentos.
São perigosas, porque ajudaram pessoas como Donald Trump a chegar ao poder, seja pela comunicação directa via Twitter, seja pela propaganda dissimulada e assente em notícias falsas. E são perigosas porque ajudam a disseminar pensamentos abjectos e racistas, bem como ideais terroristas.
São perigosas, porque destapam e amplificam o que de pior o ser humano tem, a crueldade, a agressividade, o lixo, a miséria que há em cada um de nós.
As redes sociais são perigosas, porque são um vício e foram feitas para serem aditivas. São também palco de hipocrisia social, como a daqueles amigos virtuais que passam por nós na rua e não nos cumprimentam.
Obviamente que as redes sociais são tudo isto e muito mais.
São janelas abertas para a amizade, para a divulgação de boas ideias e boas práticas, de projectos solidários, para o envolvimento dos cidadãos nas melhores causas. As redes sociais podem ser poderosos meios de afirmação da cidadania e de consolidação da democracia.
Combate-se o vício e a dependência, obviamente usando-as com critério e moderação.
E sempre na perspectiva de que há muito mais mundo para lá das redes sociais, com cheiros, beleza cromática, sabores, encontros com os amigos e familiares, conversas, gargalhadas, abraços, beijos, convívio, desfrute do mar ou da natureza, das ruas e das pequenas coisas, que nenhum telemóvel, por mais sofisticado que seja, consegue proporcionar!
É útil estar ligado, quando necessário, para trabalho ou lazer, mas também é útil desligar, porque o mundo real é bem mais interessante que o que é mediado por qualquer rede social!

2. Não foi pelas redes sociais mas foi pela constante presença e missionação nos ecrãs de televisão que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa chegou a Presidente da República há exactamente dois anos. Marcelo é claramente um produto da televisão, a que depois se associam as redes sociais, para o bem ou para o mal, para o elogio ou para a crítica.
Marcelo Rebelo de Sousa foi, ao longo destes dois anos, claramente um Presidente da República diferente, sobretudo do antecessor, granítico, silencioso, politicamente colado à agenda da direita. Pelo contrário, o actual inquilino de Belém impôs-se por uma magistratura de proximidade, de esbanjamento dos afectos. Porventura, nunca outro Presidente distribuiu tantos beijos e abraços como Marcelo, que quebra todos os protocolos e esfarela as convenções, dando redobrados trabalhos aos seus seguranças, no sentido de estar mais perto dos portugueses, em qualquer situação.
O energético Presidente é um homem presente onde algo acontece, sobretudo nas desgraças, havendo mesmo quem o acuse de explorador das desgraças e das tragédias que têm acontecido em Portugal.
Também criticada, e com alguma pertinência, é a excessiva loquacidade do Presidente da República, que teima em não abandonar a sua faceta de comentador sobre todos os assuntos e mais alguns.
Marcelo comenta de manhã a quadratura do círculo, ao meio dia o impacto dos adubos na fortificação das abelhas, a meio da tarde o silêncio dos lábios de um jogador de futebol como protagonista dos versos de algum poeta e à noite as ressonâncias da melancolia da guitarra como nostalgia do português, onde quer que ele se encontre, como gosta, e bem, de afirmar.
Marcelo cansa só de olhar para ele e de o ouvir falar, em todas as circunstâncias, comentado tudo o que acontece e tudo o que poderia e deveria acontecer. Ou não.
Por isso, muitas vezes ressabe a despropósito o que o Presidente comenta, porque é velha e relha a sabedoria popular que consagra que quem muito fala pouco acerta. Não será bem o caso mas um pouco mais de contenção, de pudor argumentativo e de resistência a ter de se pronunciar sobre tudo o que mexe, não faria mal nenhum ao mais alto magistrado da Nação. Se a palavra é de prata, diz também o adagiário, o silêncio é de ouro.
Mas Marcelo não parece saber o que isso é, sobretudo se tem câmaras de televisão e microfones de rádio virados na sua direcção!
É um homem de comunicação e da era da comunicação e o silêncio é o seu calcanhar de Aquiles!

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