Correio do Minho

Braga, terça-feira

Recuperação económica na Europa exige flexibilização das regras orçamentais

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2016-01-30 às 06h00

António Ferraz

Há um ano o Banco Central Europeu (BCE) avançou finalmente com medidas monetárias conhecidas por “alívios monetários” no espaço do Euro (os Estados Unidos já o tinha feito logo no início da crise financeira de 2008).
O que pretende o BCE ao aplicar os “alívios monetários”?

No essencial, quer através de volumosas operações de cedência de liquidez (moeda) ao sistema bancário, fazendo baixar as taxas de juro aumentar o poder de compra das famílias e empresas, criando condições do lado da procura agregada para, por um lado, recuperar a economia (produção e emprego) e, por outro, afastar o risco de deflação na zona Euro (a descida persistente dos preços podem implicar estagnação económica por adiamento de compras pelas famílias e de realização de projectos de investimento pelas empresas).

Os “alívios monetários” do BCE tem-se vindo a expressar pela aplicação de medidas monetárias expansionistas, tais como:
(a) massivas operações de cedência de liquidez (moeda) ao sistema bancário, as chamadas operações de mercado aberto “open market”, baixando as taxas de juro e, assim, estimular a procura agregada da economia (consumo e investimento);
(b) corte da taxa de depósito (facilidade permanente) do BCE;
(c) compras regulares e avultadas de títulos de dívida pública soberana (TDP), nomeadamente dos países endividados financiando-os e reduzindo os encargos com os juros da dívida pública soberana (TDP), aquilo que em economia se designa por “monetização da dívida pública sobera- na”.

Porém, os resultados práticos da aplicação dessas medidas monetárias do BCE não tem vindo a ter ou, o não tem feito numa medida adequada, nomeadamente se atendermos para o ainda débil crescimento económico (1,5%, média Zona Euro, em 2015!) e a elevada taxa de desemprego (11%, média zona Euro em 2015!). Também o perigo da deflação continua a existir com a inflação continuando muito próximo dos 0%.

O que poderá então explicar esta aparente contradição entre expansionismo monetário e não (ou pouco) crescimento económico?
Ora, o tem vindo a acontecer na zona Euro e num quadro de recessão persistente é que;
(a) do lado da procura de crédito pelos agentes económicos (famílias e empresas) continua a estar bastante limitada dada as expectativas ainda negativas e a elevada incerteza dos agentes económicos face ao evoluir da economia da zona Euro e mundial), ou seja, estaríamos perante o fenómeno designado por “armadilha da liquidez” (Keynes);
(b) do lado da oferta de crédito pelos bancos, de igual forma, tem havido fortes resistências à concessão de crédito bancário aos agentes económicos, com relevância pela sua importância estratégica no crescimento económico para a concessão de crédito ao investimento;
(c) tem existido uma aplicação considerada excessiva dos fundos bancários em depósitos (facilidade permanente) no BCE (mesmo com taxas de juro negativas, alegadamente por razões de segurança e por eventuais ganhos no futuro);
(d) os bancos também têm dado preferência às compras de títulos da dívida pública soberanos (TDP) de países mais fortes (exemplo, Estados Unidos e Alemanha), pelos mesmos motivos da apetência pelos depósitos no BCE pelo sistema bancário. Em consequência, o estímulo que se quer dar a procura interna como um dos factores impulsionadores do crescimento económico tem sido altamente condicionada, não se tendo produzido efeitos multiplicadores (no consumo e no investimento) positivos o quanto baste sobre a economia.

Como resultado deste cenário desfavorável, o BCE anunciou em 3 de Dezembro passado uma nova extensão das medidas de “alívios monetários” (até Março de 2017), a saber;
(1) nova descida da taxa (facilidade permanente) de depósito no BCE (passando de -0,2% para 0,3%);
(2) reforço das operações de cedência de liquide (moeda) no mercado monetário interbancário;
(3) reforço das compras de activos em TDP soberanos. À partida, essa extensão tenderá a beneficiar Portugal, por economia de recursos, mormente os resultantes da redução dos encargos com juros da dívida pública portuguesa. Espera-se, deste modo, que o BCE venha a adquirir mais 27% em dívida pública portuguesa.
Concluindo, os “alívios monetários” adoptados pelo BCE num quadro económico recessivo e de muito baixas taxas de juro na Europa tem sido insuficiente para aumentar a procura global, a produção, o emprego e para afastar a deflação. Para que tal aconteça torna-se necessário complementar as medidas monetárias do BCE com políticas orçamentais expansionistas o que passa em grande medida pela flexibilização das regras orçamentais comunitárias (e do Tratado Orçamental) actuais, de forma a permitir criar uma maior margem de manobra à realização do investimento público (tendo em conta as dificuldades do sector privado), sob pena de qualquer processo de recuperação económica sustentada na estar voltada ao fracasso dado os ainda muito diferenciados níveis de desenvolvimento e de produtividade no espaço europeu.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

23 Outubro 2018

Caminho perigoso

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.