Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Recuo do desemprego é uma treta!

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Ideias

2014-09-07 às 06h00

Artur Coimbra

1. Em pleno mês de Agosto foi anunciado, com girândolas de fogo-fátuo e em plena estação do disparate, que o desemprego em Portugal regis- tou a maior queda na União Europeia.
É claro que o desemprego constitui o flagelo maior que se abateu sobre os portugueses, que é o que nos interessa abordar, pelo que são sensíveis os sinais que possam ir no sentido da sua queda. Quando tal acontece, na verdade e não apenas na distorção estatística!...

Os propagandistas não deixaram de sublinhar que a taxa de desemprego ficou em Julho nos 14%, de acordo com os números do Eurostat, que compara com 16,3% em Julho de 2013. Ou seja, num ano, a taxa de desemprego terá alega- damente descido 2,3%, no que é pretensamente a maior queda anual no espaço da União Euro- peia, a par da Hungria. A taxa média de desemprego na zona euro é de 11,5%.

As trombetas governamentais e mediáticas acabaram por asseverar que, “num ano, o número de desempregados reduziu-se em 125 mil”.
Também o inefável Marco António Costa, o António Ferro de Passos Coelho, viria afirmar que a descida da taxa de desemprego em Portugal é uma 'importante notícia para os portugueses' que mostra que 'o país está no rumo certo'.

Vista assim, em bruto, sem qualquer interpretação, esta “melhoria dos indicadores ligados ao desemprego”, até seria uma boa notícia, não se desse o caso de não ser boa notícia nenhuma.
Todos sabemos que o pretenso recuo do de- semprego não passa de uma treta, uma grosseira mistificação.

Podem juntar-se estatísticas do INE ou do Eurostat, que não conseguirão desmentir uma verdade absolutamente fundamental: não é a criação de empregos neste país que está a explicar a descida do desemprego, ao contrário do que querem fazer crer as centrais da propaganda governamental, e seus apêndices. O que a justifica são diversos factores, entre os quais os expe- dientes usados pelo governo para mascarar o desemprego e a dramática emigração dos nossos jovens e menos jovens que, desta forma, esvaziam as inscrições dos centros de emprego.

Como anunciou o Expresso de 30 de Agosto, o número de desempregados abrangidos por medidas de inserção no mercado de trabalho do Instituto de Emprego e Formação Profissional disparou e ajudou a diminuir a taxa de desemprego. Os desempregados em programas de emprego do IEFP aumentaram 47,7 mil desde 2013. Curiosamente, numa altura em que tantos alardeiam as virtualidades da iniciativa privada e do empreendedorismo, 60% dos alegados “novos empregos” que foram criados no último ano são pagos pelo Estado, através de programas oficiais e só 40% é que serão da iniciativa das empresas.

A emigração, por seu turno, é responsável pela “absorção” de cerca de 120 mil desempregados por ano, de todas as idades, formações e condições sociais que, como sempre aconteceu ao longo da nossa História, fogem da crise e da pobreza, em busca de uma “vida melhor” e com a maior dignidade.

Assim, quando o Instituto de Emprego e Formação Profissional, a meio de Agosto, se ufana- va, governamentalmente, em anunciar que “medidas activas de emprego ajudaram a reduzir em 15% o número de inscritos com menos de 25 anos nos Centros de Emprego”, correspondente a mais 13 mil jovens alegadamente empregados, não podemos deixar de considerar que tais “medidas” não correspondem a empregos nenhuns, ou a pouquíssimos deles. São meros paliativos para mascarar a realidade da incompetência governamental para levantar o país do pântano em que se encontra.

Relacionam-se com acções de formação que enxameiam o país e servem apenas para passar tempo e adiar a entrada de jovens (e menos jo- vens) num “mercado do trabalho”, que não exis- te. Como se referem a estágios profissionais (Es- tímulo Emprego, Estágios-Emprego, Incentivo Jovem e Incentivo Emprego, entre outros) que duram apenas um ano, ou menos e não passam de estratagemas para disfarçar e ocultar uma ta- xa de desemprego que roça a pornografia. Como se referem a imensas situações de precariedade que são demasiado comuns no tecido económico e empresarial dos nossos dias.

Em resumo, as estatísticas europeias e portuguesas relativas ao desemprego são mentirosas,
mistificadoras e falazes, no sentido em que não reflectem de forma alguma a realidade do de- semprego em Portugal, que é muito maior e mais profunda do que nos querem fazer crer!

2. O colega Diário do Minho noticiava, no final de Agosto, que, durante o primeiro semestre deste ano e segundo dados do IEFP, os centros de emprego do distrito de Braga apresentaram 10 500 ofertas de emprego mas pouco mais de metade dos lugares disponíveis é que foi ocupado.
A primeira reacção que nos acomete é tratar-se de um fenómeno estranho. Como é que é possível, com o desemprego que se verifica hoje em dia, não haver gente interessada nas ofertas de emprego que vão rareando?

É esse dado que falta perceber: a ausência de interesse dos desempregados nos postos de trabalho que são disponibilizados.

Falta saber que tipo de empregos foi oferecido; em que sectores de actividade; qual o vencimento respectivo; qual o grau de atractividade. Lançar números desta forma é mera propaganda por parte do IEFP e mais uma lamentável acha para a labareda da ideia de que os portugueses não querem é trabalhar. São uns calaceiros, uma ideia claramente contrariada pelos nossos emigrantes, que ganham muitíssimo mais e em melhores condições no estrangeiro, o que significa que o problema estrutural do país não reside nos trabalhadores mas na organização do tecido económico, do ponto de vista laboral.

Os portugueses não querem é ser explorados, escravizados nos seus direitos e na sua dignidade, como tantas vezes acontece por gente sem escrúpulos, que quer reproduzir em Portugal o modelo chinês ou do terceiro mundo. Os portu- gueses têm direito a condições de trabalho e de retribuição pautadas pela justiça e pelo respeito pela pessoa humana.

Talvez isso explique por que há milhares de empregos sem procura neste distrito (e no país). Era interessante saber porque é que tal acontece!...

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