Correio do Minho

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Conta o Leitor

2014-08-20 às 06h00

Escritor

Luna Braga

Chegara finalmente a tão esperada Carta de Chamada do meu Pai, que havia partido para Luanda, a 19 de Março de 1959, numa viagem de 15 dias, num navio pouco veloz, o “Quanza”, que fez escala em Dakar.
Nunca estivéramos separados. Íamos, enfim, decorridos 3 meses, reunirmos a família (meus pais e eu).

Depois de tratada toda a documentação, incluindo os indispensáveis s certificados de vacinação (obrigatórios para quem viajasse para o ultramar, “tínhamos a nossa viagem marcada para 20 de Junho de 1959, desta vez a bordo de um navio mais moderno, o “Vera Cruz”.

Pelas 15:00 do dia 29 de Junho, dia de S. Pedro, começamos a avistar Luanda, mas demorou muito a atracagem do navio, pois permaneceu bastante tempo ao largo enquanto a azáfama dos passageiros adultos era enorme. É que não podíamos desembarcar sem que toda a nossa documentação fosse conferida, ao pormenor, por uns elementos de polícia especial (PIDE) que numa pequena embarcação subiram a bordo do navio.

Após o minucioso controlo, cada um de nós na amurada do navio, olhava atentamente (assim que se efectuou a atracagem) lá para baixo, para o porto apinhado de gente, procurando ansiosamente os nossos familiares. Passados uns bons instantes (nessa altura eu tinha uma óptima visão), num grito de alegria, chamei “pai”e insistentemente abanei a minha mão direita, empunhando o meu pequeno chapéu de palha com fitas azuis.

O movimento no porto era imenso, já se misturavam passageiros abraçando quem os esperava, num trânsito dificultado pelos bagageiros transportando as nossas malas.
Era a nossa 2ª viagem para África. Ali completei, dentrode2 semanas os meus 12 anos. Foi em Luanda que estudei, acalentei sonhos de estudo que não concretizei, por dificuldades económicas; foi naquela linda cidade que iniciei a minha carreira profissional num Ministério, pelo qual me aposentei, já em Braga.

Só eu regressei a Portugal. Meus Pais haviam falecido por doença e enfrentei sozinha a situação inconfortável de um país em período de pré independência.
Já tínhamos estado uma 1ª vez, em Malange e apesar de não termos sido em sucedidos , pelo que regressámos, o meu Pai deixou-se fascinar pelo modo simples e saudável como ali se vivia.
Lembro-me de o meu Pai dizer muitas vezes “ Havemos de voltar a África”. E assim sucedeu.
Mas antes de embarcarmos, eu e minha Mãe fomos passar três dias a casa de uma sua amiga de infância, que se mudara para a Amadora.

Assim, tomámos o comboio no Rossio - foi uma novidade para mim - e a passagem de um longo túnel , intimidou-me pela sua escuridão, mas lá chegámos ao destino.
Foi uma festa o nosso encontro e mal a D. Ester abrira a porta, sinto algo a roçar-me os pés. Era um lindo gato cinzento, o Tico que, a seu modo, também nos veio cumprimentar.
À nossa espera já estava a mesa posta para o lanche. Que bem nos soube o chá quentinho, as torradinhas e uns biscoitos feitos pela D. Ester.

As duas puseram a conversa em dia, recordando a sua juventude no Alentejo, enquanto eu eu olhava , deliciada, o netinho dormindo numa alcofinha azul e fazendo festinhas nas suas mãozinhas, mas ouvindo sempre a minha Mãe : “ Não acordes o menino “.
Depressa virei a minha atenção para uma estante que fez os meus encantos, com tantos livros.
Ao jantar, a mesa ficou mais completa, com o marido e o filho da D. Ester, regressados do trabalho. Falavam de vários assuntos e a certa altura, a D. Ester referiu que uma sua amiga tivera muita dificuldade em trazer de África, um dente de elefante.

Eu que sempre estivera calada, porque me ensinaram a não interromper a conversa de adultos, achei que mesmo tendo só 11 anos, iria apresentar uma solução facílima. E assim, fiz a seguinte exclamação:
- “Então não podia trazer o dente do elefante dentro do Soutien? “
Gargalhadas Geral e o riso não paravam.

Santa ignorância a minha! É que eu não tinha programas de televisão da BBC - Vida Selvagem e então pensava que o tal dente era semelhante a um queixal humano, embora maior.
Afinal, o verdadeiro dente de elefante era o que eu julgava ser um chifre.
Veio a hora de dormir e para mim improvisou-se a cama, pondo um cobertor dobrado, a servir de colchão, sobre uma arca de madeira de tampo liso. Tive lençóis, almofada, colchão duríssimo, más lá adormeci.

Na manhã seguinte, o pequeno-almoço, seria na cozinha (o marido e o filho saiam cedo para o emprego). Preparávamo-nos para saborear o quentinho café com leite e o pãozinho com manteiga e doce (havia até ainda umas amêndoas da Páscoa, com licor, das que eu mais gosto) quando, inesperadamente, tivemos que interromper a apetitosa refeição. Um cheiro insuportável infestou toda a cozinha.

À pressa, abriram-se as janelas da marquise e depois… foi esperar um longo tempo fora da cozinha. O que sucedeu é que o tico, precisamente nessa hora teve que ir ao seu WC que era um caixotinho de madeira, com areia, debaixo do tanque da roupa, encostado ao longo lava-louça.
Ainda hoje dou comigo a sorrir sempre que me lembro deste e de outro aparentemente pequenos e insignificantes episódios que afinal nos dão um agradável tempero aos tão agitados dias de hoje. É este tipo de memoria que me enriquece a vida; os menos bons, atiro-os para longe.

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