Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Recordar é viver

Mosteiro de Tibães: um outro olhar...

Conta o Leitor

2013-08-21 às 06h00

Escritor

Luna Braga

Com o intenso calor que aquele verão trouxera, não lhe era possível adormecer e, no silêncio da noite que acompanhava a sua solidão, avivavam-se, nitidamente essas longínquas recordações dos seus tempos de criança; eram imagens que deslizavam como um longo filme de doce saudade, e, constantemente essas lembranças da infância eram evocadas com tão grata saudade!
Realmente, recordar é viver e Mariana, vezes sem conta, lembrava gostosamente esses saudosos tempos distantes. Nesses momentos quase se sentia a vivê-los de novo.

- Mariana, ainda hoje, segunda-feira, vestiste uma bata lavada e olha o estado em que a trazes!
Muito calada, Mariana, que acabara de regressar da escola, olhava os grandes salpicos de lama no tecido branco da bata. A mãe apenas conseguira, com a sua habilidade para a costura, confeccionar-lhe duas batas e, no inverno, havia dificuldade em lavar e enxugar a roupa.

Enquanto Mariana tirava da pasta os livros e os cadernos para estudar e fazer os exercícios de casa, na velha mesa redonda da cozinha, a mãe ia preparando o jantar e murmurando: “ Sempre esse vício de saltar à corda no pátio enlameado! Não tendes outra forma de aproveitar o recreio?”
- Olha, mãe! Hoje tive um excelente na minha redacção - interrompeu Mariana, argutamente, para mudar o rumo à conversa.
- Que bom, minha filha! - retorquiu a mãe com a sua habitual calma e ternura. Na verdade, Leonor não sabia nem tinha sequer coragem para ralhar. A sua única filha era o seu enlevo e orgulho, estando sempre disposta a ouvi-la e ajudá-la no seu percurso escolar. Mariana era uma criança afectuosa que a todos encantava.

Aproximava-se o exame da 4ª classe e o de admissão ao liceu, e, se o primeiro já era difícil, o segundo era muito mais exigente, mais selectivo, traduzindo-se muitas vezes, em reprovação. Efectivamente era assim naqueles tempos, há cerca de sessenta anos atrás.
Leonor comprou um tecido de popelina cor-de-rosa e fez, para os referidos exames, um lindo vestido franzido, com entremeios de renda branca, no peito e na saia, também por si executados. Quase sempre se estreava roupa para esta ocasião tão significativa para a vida estudantil de uma criança. Mariana e seus pais festejaram o sucesso que aquela obtivera nos dois exames.

“Como hoje é tudo tão diferente”! pensava Mariana enquanto ia limpando o pó da estante onde havia formado a sua biblioteca. Cada livro era tratado com o maior cuidado e carinho e vinham-lhe à mente os conselhos que seus pais inú-meras vezes repetiam: “Os bons livros são sempre os nossos maiores amigos. Estima-os, porque neles tens sempre as fontes do conhecimento e uma companhia fiel”.

Realmente, era assim que Mariana considerava os livros que ao longo de vida fora adquirindo, visto que era grande a sua ânsia de saber.
Ao arrumar a última prateleira, há um livro que tomba e Mariana, ao segurá-lo, repara que ele tem para si um grande significado. Abandona o pano do pó, pega no livro, aperta-o contra o peito e senta-se no sofá junto à estante, revivendo, por ins-tantes, a forma como o ganhou. Abriu a capa azul e, na primeira folha, lê:

“Prémio concedido pelo Liceu D. Guiomar de Lencastre. À aluna Mariana pelo bom resultado obtido no 2º ano, ( 15 valores )no ano lectivo de 1961/62”.
HERMÍNIA ROBERT
Reitora

Aquela classificação isentara-a de exame. Mariana esteve, algum tempo, absorta na lembrança desse memorável acontecimento no liceu da sua saudosa Luanda. Foi um momento de grande cerimónia, pois coincidiu com a inauguração oficial daquele estabelecimento de ensino, presidida pela esposa do então Presidente da República.
O anfiteatro estava repleto, mas a pessoa mais importante para Mariana, era a sua mãe que orgulhosamente assistiu à sua chamada ao palco, para receber, das mãos da Reitora, devidamente por esta rubricado, o tal livro de capa azul: “ A CIDADE E AS SERRAS “ do nosso escritor Eça de Queiroz.

Essa lembrança permanece apenas na sua memória, porque, infelizmente, ne-nhuma das alunas premiadas recebeu qualquer fotografia.
Mariana releu, ao acaso, algumas folhas do livro e recolocou-o no seu lugar, completando, seguidamente, a limpeza e arrumação da estante que é o seu enlevo e faz daquela divisão da casa, o seu mundo.

Actualmente, continua com o mesmo gosto pela leitura e pode dizer-se que o seu vício é a constante visita às livrarias; é uma tentação a que não se sabe furtar. Oferece livros a si própria e de igual forma procede para com as pessoas do seu círculo de amizade.
É a leitura a sua indispensável compa-nhia, a par da composição poética a que se dedica, de forma a mitigar a saudade dos seus bons tempos de infância e adolescência e, outras vezes, a expressar os diversos sentimentos que invadem a sua alma.

Na leitura e na escrita, eis Mariana viajando num mundo de liberdade e esperança no futuro, mas relembrando, sempre sadiamente o passado.
A sua poesia é o espelho dos sentimentos que a dominam; transpiram uma vida de sonhos, saudade e também amor; e vezes sem conta relê os desabafos e confissões que as folhas de um caderno decoradas com desenhos, como um caderno de adolescente, guardam quais testemunhas e confidentes dos seus momentos de tristeza e angústia ou de esperança e sonhos de quem ainda acredita que a Vida tem sempre alguns bons momentos para nos ofertar.

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