Correio do Minho

Braga,

Recordando a minha Adolescência em Luanda

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2014-08-07 às 06h00

Escritor

LUNA BRAGA

Tento adormecer mas não consigo. São 23H30 e a música que um altifalante transmite, transporta-me em pensamento a épocas distantes (há meio século), saudosamente recordadas.
Fecho um pouco os olhos e delicio-me evocando as quentes noites de Luanda, em que nós, quando jovens, fazíamos alegres festas de aniversários nos grandes e frondosos quintais floridos de nossas casas, com a permissão de nossos pais.
Mariscos e frango de churrasco, rissóis e refrigerantes enchiam a mesa e o antigo gira-discos animava as nossas danças, umas vezes ao ritmo africano, outras, com as novidades da boa música dos anos 60.
Não tínhamos televisão, mas falta nos fazia isso? Nenhuma!
Havia, em abundância, a alegria de uma sã camaradagem. E quando a manhã se fazia anunciar íamos esperar, na Ilha, o sol aparecer, iluminando à beleza da baía onde, à noite, nas quietas águas, por entre os verdes e altivos coqueiros da Avenida Marginal, se reflectiam as luzes dos candeeiros.
O nosso local preferido era o Farol , na porta da Ilha, apontando para a vastidão do Atlântico que às vezes, em dias mais luminosos, deixava avistar um navio lá bem ao longe, tocando a linha do horizonte.
Levantou-se o dia e descortinava-se o casario, a beleza marcante do edifício cor-de-rosa do Banco de Angola e lá no cimo a bonita fortaleza de S. Miguel.

Após um banho nas deliciosas águas tropicais, regressávamos a casa, ( de carro , uns e de machimbombo - autocarro -, outros) para um merecida descanso de domingo. Sim, porque estas festas eram sempre ao sábado à noite, festas que chamávamos farra, termo que não tinha qualquer conotação de desordem. Eram festas de sã convívio, de uma alegria espontânea. África era assim, fraterna, de coração aberto, companheirismo e verdadeiro calor humano.
Quem é que lá tendo vivido não recorda com saudade as idas para as praias, viajando nas carrinhas de caixa aberta?
Pois é, seria perigoso, mas a gente lá ia sentada, feliz, cantando e, às vezes de pé, segurando-nos firmemente às grades traseiras da cabine da carrinha.
Linda a viagem para as praias mais distantes! À direita da estrada, bem lá no fundo, estendia-se o brilhante azul do mar , reflectindo o luminoso céu. À esquerda, a vermelha terra africana de onde se erguiam velhas árvores exibindo nos seus largos troncos, letras a tinta branca anunciando uma conhecida marca de automóvel.
Chegados à praia escolhida, armávamos os chapéus-de-sol.
Íamos prevenidos com água, refrigerantes numa mala muito especial que eram as malas térmicas de então: umas caixas de esferovite com pegas ou asas de corda. Lá dentro, os indispensáveis blocos de gelo que previamente comprávamos numa casa chamada Frigor, no Bairro Vila Clotide onde eu morava.
Nunca consegui ficar morena e quando em 1975 regressei a Portugal, ouvi , com espanto a exclamação de uma vizinha, nos arredores de Lisboa :
“Ah! A menina veio de África? Mas não parece, é tão branquinha! “
Mas o que eu recordo sem que evite sorrir é um episódio engraçado, que foi festejar, no liceu, o aniversário da nossa colega Milita, que combinou levar um bolo, partido em fatias, numa caixa e uma garrafa de champanhe. Cada uma de nós levaria um copo de plástico. A festinha seria na própria sala de aula. Durante uma “ Borla “, isto é, uma professora faltaria, por estar doente. Assim, tínhamos 50 minutos por nossa conta.
Bem fechámos a porta, mas as conversas animaram-se , o barulho aumentou e das salas ao lado vieram as respectivas professoras e os seus raspanetes e a ameaça (concretizada) de chamarem a Senhora Reitora.
Sim, era o tempo em que os liceus tinham Reitores,
Mal as professoras abalaram, nós, atabalhoadamente, escondemos a caixa do bolo, os copos e a garrafa de champanhe, vazia, nos armários onde guardávamos o equipamento de ginástica (muito decente: de cor branca, uma camisola de meia manga e uma saia-calção pregueada, ate aos joelhos ).
E num instante, eis que chega a importante figura da Reitora, olhando por cima dos óculos, com um semblante ameaçador, perguntando:
“ Onde estão as garrafas de champanhe ? “
Fez-se um profundo silêncio entre nós, de pé , muito hirtas ,nas nossas batas brancas, quais uniformes. Era o tempo em que o respeito impunha que nos levantássemos à chegada de um professor.
Passados uns segundos, quando a Reitora se dispôs a vasculhar os armários, ouviu-se uma voz muito sumidamente:
“ É só uma garrafa! “
- “ Só uma, diz a menina? retorquiu a Reitora, continuando:
-“ Se isto constar lá fora, as pessoas vão dizer que as meninas do liceu bebem, não uma, mas sim, garrafas de champanhe. Isto é inadmissível, uma autêntica vergonha”
Entre nós reinava o pavor de apanhamos uma falta disciplina o que correspondia a uma mancha negra na nossa caderneta pessoal, pois isso teria implicações na futura vida profissional.
O assustador momento de suspense só se dissipou quando a Reitora ao retirar-se se voltou e disse:

-“ Por esta vez fica assim. Já agora, quem é a aniversariante?
Já mais calma, mas de voz trémula, Milita respondeu:
- “ Sou eu, que fiz 15 anos”
Respirámos de alivio quando o perigo passou e no intervalo, anunciada pela forte campainha acusávamo-nos sobre de quem era a culpa de termos sido descobertas.
A juventude, seja em que tempo for jervilha de alegria. Mas realmente nunca mais infringimos a ordem.
Uma curiosidade desses tempos; se nos atrevêssemos a ir de unhas pintadas para o liceu, uma continua levava-nos a Reitora onde havia um frasco de acetona para limpar o verniz!

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.