Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Razão Inútil

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2015-05-04 às 06h00

José Manuel Cruz

Que fosse em nome de razão inútil, não devia alguem de primeira linha ter representado a Nação portuguesa em Erevan? Acompanho os instantes finais da cerimónia. A mesma flor amarela - Hollande, depois Putin, por último Sargsyan. Na panorâmica distingo uma pequena bandeira nacional, e interrogo-me sobre quem nos teria representado. Reforço: a Nação portuguesa, não o governo de Portugal. Eu estou-me nas tintas para o que este ou outro governo do momento pudesse pensar sobre a Arménia e a presente cerimónia, sobre fazer-se representar ou não em tal acto público e a que nível, sobre a semântica das carnificinas perpetradas pelos homens: o assassinato indiscriminado de arménios em 1915 terá sido um massacre? Um genocídio? Terá havido um plano, desejado por altas instâncias turcas, e difundido por despachos à boca pequena? Ascenderão as vítimas ao reclamado milhão e meio?
Não seja a Arménia uma primeira prioridade diplomática portuguesa, não tenhamos nós uma conta-corrente com esse pequeno país do Cáucaso que determine idas e vindas à mais insignificante ou expressiva celebração: e a dívida irrebatível que a Nação portuguesa tem para com Calouste Gulbenkian? Dívida moral, perante ele, e quanto dele se prolongue indefinidamente na sua memória. Perante familiares e descendentes. Perante os arménios de hoje, mesmo daqueles que nunca ouviram falar de Gulbenkian ou de Portugal, país a que ele se acolheu, e a quem legou vultuoso património material e, sobretudo, valores e horizontes culturais.
É bem verdade que não sigo com detalhe a imprensa nacional. Não sei, por conseguinte, se alguém melhor preparado desembocou na questão que aqui levanto, e se mais eloquentemente a tratou. Perdoem-me os magros argumentos e a insuficiência de autoridade. Mas, em uníssono com os que possam ter versado este tema, gostaria eu - que fosse por mim próprio - de reconhecer que Portugal ficou diferente por acção de Gulbenkian. Sublinho: há um Portugal que não existiria hoje, se não tivesse acontecido Gulbenkian. Assim me pergunto, portanto: que personalidade portuguesa acompanhou a criança arménia que se prestou a porta-estandarte da bandeira nacional? Cavaco? Coelho? Portas? Machete? Em que universo viverão eles, o primeiro, essencialmente?
Para quê confortar arménios, se tal não se faria senão a expensas de quanto se degradasse o capital de respeitabilidade de turcos? E os turcos - ao que se explicará em comunicados diplomáticos de última hora, para que a boa família euro-americana se mantenha unida, e não dê parte de fraca - fazem uma falta terrível no aceso combate ao terrorismo, e como testa-de-ponte para qualquer intervenção rápida na Ucrânia...
Portugal, que como sabemos não conta para nada, poderia ter saído da forma, que fosse por esta vez, fizesse-o ou não em nome de valores absolutos, ou tão-só como expressão de irmandade simbólica para com o povo arménio. Deveria tê-lo feito, particularmente, por um dia ter evocado a solidariedade internacional em defesa dos timorenses, recorrendo ao termo genocídio. E tivessem sofrido os timorenses provações que eu não quisesse para mim, que nem por sombra passaram pelas tribulações dos arménios de há 100 anos.
Em proveito duma verdade conveniente declinaram as primeiras figuras das democracias ocidentais a presença em Erevan. De essencial a cerimónia nada perdeu, já em dignidade perderam todos os ausentes. Portugal, mais do que todos, e na proporção do que deve a Calouste Sarkis Gulbenkian.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.