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Rasgar a Pele

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Rasgar a Pele

Voz aos Escritores

2020-09-18 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

O racismo sempre existiu, como uma chaga que fere a pele, a massacra, a putrefacta até matar o ser que dela sofre num padecer de maldade, de injustiça, de impotência diante da soberba inescrupulosa de quem lhe infringiu essa ferida purulenta. O racismo arrasta-se pelos séculos, derruba fronteiras e navega por oceanos de cores múltiplas, preto, branco, amarelo, vermelho, cores que ditam a condição de cada ser humano como um rótulo, uma etiqueta que define identidades e traça destinos, uma capa que encobre e serve de subterfúgio para realidades bem mais profundas e iníquas tão próprias da condição humana que devia ser apelidada de desumana.
As rotas da escravatura percorreram os cinco continentes e durante os séculos em que a Europa colonizou o “Novo Mundo”, milhões de Africanos foram capturados, agrilhoados, encafuados em barcos negreiros, tumbas flutuantes entupidas de homens, mulheres e crianças, mão-de-obra indispensável nas explorações dos territórios colonizados, “peças” essenciais para a obtenção dos lucros, da ávida riqueza dos que se consideravam superiores. Os Portugueses encabeçam a lista negra dos traficantes Europeus. Os territórios ocupados pelos Lusitanos careciam de braços, as plantações do Brasil exigiam quem as laborasse, as minas quem as garimpasse, São Tomé e Príncipe demandava gente que não era gente, negros vergados à condição de escravos, o cacau, o café, o açúcar que deliciavam as bocas dos afortunados obtidos pelo sangue, suor e lágrimas dos explorados, homens chicoteados, mulheres sovadas, violadas, mães a quem arrancavam os filhos, os filhos eram pertença dos senhores que deles faziam o que queriam, procriações de semelhanças bovinas, crianças estupradas, vendidas, desaparecidas no infindável mundo da ignomínia.

Nos Estados Unidos da América, baluarte das liberdades, dos sonhos dos audazes, a escravatura alastrou-se numa mancha negra que serviu de incentivo à Guerra da Sessação, uma guerra fratricida e cruel que definiu o fim da escravatura mas não espantou o racismo. O abolicionismo agravou ódios e assassinou sonhos. I Have a Dream, as quimeras brutalizadas de milhares, de Malcolm X e de Martin Luther King. A cor da pele continua a ditar a discriminação ao som do slogan Let´s Make America Great Again. A ganância provocou o genocídio dos Índios, a usurpação das suas terras, a profanação dos seus costumes, a matança desenfreada e sanguinolenta das tribos autóctones. O país que se apregoa a maior potência do mundo, que ostenta direitos, liberdades e garantias, que fecha as fronteiras aos que nele querem habitar, invadiu, roubou e exterminou os Ameríndios de pele-vermelha e prosperou pela exaurida massa negra num domínio ignóbil e economicista. Na Austrália, os Aborígenes sofreram as mesmas represálias praticadas na América do Norte e do Sul. Como os Africanos, foram pelos Europeus rotulados de hereges, canibais, seres sem alma, os Europeus que se muniam da patranha da cristianização para legitimar a subjugação e a segregação.

Entre 1939 e 1945 o mundo enlouqueceu, assistiu e participou, num terror análogo às atrocidades esclavagistas, à maior guerra da História da Humanidade desencadeada pela Alemanha nazi encabeçada por Hitler e o seu séquito de carrascos. A raça ariana proclamava pureza e supremacia. Em nome dessa raça demiúrgica de seres perfeitos, praticava-se a eugenia, a eutanásia como “medida misericordiosa” doada aos fardos da sociedade incapazes de produzir mais-valias, aos estropiados e doentes mentais, às crianças com anomalias também usadas como cobaias de “experiências científicas” em prol do aperfeiçoamento da espécie. Este despotismo facínora e exacerbado, sustentado em falácias raciais, exterminou milhões de Judeus, Ciganos, Homossexuais, Comunistas, Dissidentes que conspurcassem os ideais nazis e a pureza da raça ariana, a raça que dominaria o mundo.

A questão racial foi mais uma das demagogias nazis que custou e despedaçou a vida de milhões de seres humanos, que tinha por base a conquista territorial dos países ocupados e a usurpação dos bens pertencentes às vítimas. Os Judeus foram o bode expiatório de um regime maléfico e ditatorial, um regime movido pela sede insaciável de poder, o poder que vicia e cega, o poder que como uma besta alimenta-se de mais poder, mais posse, mais sofrimento, mais matança, assim funcionam as tiranias sustentadas na censura, no uso do terror e da violência, na propaganda que incendeia multidões, na criação de um hipotético inimigo na maioria das vezes racial, no culto da personalidade egocêntrica, na doutrinação das massas, no controlo da polícia e do exército, na edificação de um império legitimado, ideal para um punhado de doentias elites que pisoteiam, torturam, manipulam, roubam e matam os perseguidos.

A democracia é frágil e tomámo-la como uma governação adquirida sem sofrimento. A memória tem pavio curto. O racismo e a escravatura persistem. O tráfego de seres humanos é o negócio mais rentável da Terra. É preciso rasgar a pele e vasculhar nas entranhas. Debaixo da pele, camada fina de cores distintas, existe um casamento incolor e agnóstico, incólume ao passar dos anos e à chateza dos dias. Debaixo da pele existe o matrimónio do poder com o dinheiro, união sólida e perpétua, indissolúvel desde tempos imemoriais e que usa a cor da pele como um adorno de contornos terríveis.
A educação é a única via capaz de combater o racismo, a discriminação, a exploração e o despotismo. Por um mundo livre, sem títulos de cor e sem preconceitos absurdos, eduquemo-nos e eduquemos.

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