Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Rankings: desigualdades? desequilíbrios?

Um futuro europeu sustentável

Correio

2010-11-01 às 06h00

Leitor

“Os rankings das escolas são um péssimo indicador do que é a actividade da escola.”
José Madureira Pinto in CM de 24 de Outubro

1 - Sabemos que a qualidade do ensino depende da qualidade de dos ensinantes e dos aprendentes e da competência de quem ensina e de quem aprende.
Sabemos que o défice de avaliação das políticas educativas, das escolas, dos alunos, dos professores é proporcional ao défice de qualidade da educação no ensino público.
Sabemos que a avaliação é um requisito da qualidade do ensino.
Sabemos que a avaliação interna (monitorização/avaliação formativa permite detectar deficiências para reorientar as aprendizagens) e que a avaliação externa permite aferir dos níveis de desempenho entre alunos e entre escolas.
Sabemos que a avaliação interna e a avaliação externa são complementares, expressando um referencial que poderá funcionar como elemento (motivacional) a atingir.
Mas… sabemos que os rankings não têm em conta as características das instituições públicas que prestam serviços educativos e a sua divulgação tem consequências sérias, como refere José Madureira Pinto, “ao nível da acção dos professores que preocupados com a melhoria dos resultados abandonam a educação para a cidadania”.
Pondo de lado as limitações dos instrumentos de avaliação utilizados nos rankings, temos de usar os seus resultados em benefício pró-prio, isto é, como referencial de reflexão, de esclarecimento…mas, acima de tudo, com seriedade e ponderação.

2 - Os rankings parecem, à primeira vista, querer dar razão à tese das escolas privadas serem melhores do que as escolas públicas. Numa análise pormenorizada, verificámos que essa tese é só válida para os grandes centros onde (como toda a gente sabe!) o nível socioeconómico e as condições de vida são melhores e o potencial económico gera maior procura pelo “produto educativo”. O ensino privado está afirmado nos grandes centros (Porto, Lisboa) e nada mudou, ou pouco mudou, no mercado da educação e nesta dinâ-mica de procura desde o século XIX.
O debate público e privado está condicionado pelo pendor ideológico. E não vou e não quero entrar nesse debate. Sou professor e estou director no Agrupamento de Escolas de Gualtar (AEG) instituição de ensino público. Por isso, não quero entrar no debate sobre a superioridade gestionária do ensino privado, ao nível da qualidade do “produto educativo” e do seu custo/preço, porque ao nível da gestão, é mais fácil, do meu ponto de vista, gerir uma escola privada do que uma escola pública. (Exemplos: 1-na escola pública de ensino básico a margem de gestão curricular é nula; 2-gerar receitas próprias? De mão estendida? 3-partilhar e rentabilizar infra-estruturas -gimnodesportivos por exemplo - nem se fala; 4-seleccionar, valorizar os recursos humanos não se pode… Enfim! Sem receitas, sem a gestão do produto educativo e dos recursos humanos a autonomia educativa é como sempre foi: autorização educativa!
Público e privado é, como referi, uma questão ideológica. Não entro nem quero entrar nessa discussão. Quero, isso sim, continuar todos os dias a melhorar as condições de ensino - aprendizagem dos ensinantes e dos ensinados da instituição pública que represento e dar respostas aos seus problemas. (Vale mais 1 minuto de acção do que 10 hora de teorização público/privado; sobre boas e más escolas, se estão bem ou mal organizadas/geridas, se são de qualidade superior ou inferior. Não entro nesse debate!)

Contudo, não posso deixar de referir que os agentes do Estado, e esses sim, em vez de num dia andarem a dizer que o privado tem falta de qualidade/rigor e no dia seguinte a promoverem a competição público/privado se concentrassem na qualificação do ensino e das aprendizagens!
Um dos perigos dos rankings, e de todo o debate à sua volta, é desvalorizar o ensino público e, ao mesmo tempo, estigmatizar as escolas com piores resultados. Sabemos que no ensino básico os resultados apresentados este ano pioraram em comparação com 2009. (Uma em cada três escolas do ensino básico tiveram média inferior a três numa escala de 0 a 5). A elaboração acrítica desta lista ordenada de escolas (rankings), pode ser usada conforme o interesse e o ponto de vista de cada um, isto é, sem ser analisada a capacidade de cada escola e sem se analisar a diversidade dos alunos que acolhe.

Como vivemos, no dizer do ex-ministro da Educação Júlio Pedrosa, “numa terra cheia de desigualdades e num território cada vez mais desequilibrado”, os rankings reflectem um testemunho das desigualdades da nossa terra, do nosso país, onde o interior está fora do topo. E quando 504.086 crianças pobres frequentam o ensino público e dependem do estado para terem livros, material escolar e uma refeição diariamente estamos a discutir rankings? (O importante é ter orçamento que agrade aos mercados!)

Apesar da Escola EB 2,3 de Gualtar estar bem cotada no ranking (3,11) - EB 2,3, Lamaçães (3,52); EB 2,3 André Soares (3,17) - resultante do trabalho de todos, não atribuo muita importância e credibilidade ao ranking. Do meu ponto de vista, o importante é continuar a fazer o que sempre fizemos: usar a informação recolhida (interna e externa) para melhorar o desempenho dos nossos alunos e, ao mesmo tempo, dar o nosso contributo para uma escola democrática, justa e solidária.

Manuel Esteves - Director do Agrupamento de Escolas de Gualtar (AEG)

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