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Escreve quem sabe

2020-03-11 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Os insultos racistas dirigidos a um jogador africano no jogo V. de Guimarães- Futebol Clube do Porto, veio chamar a atenção para o fenómeno racista em Portugal, tanto mais que fenómenos deste tipo se têm multiplicado nos campos de futebol. E o assunto só tomou foros de importância porque o jogador Marega fez questão de abandonar o campo, em protesto. Mas convém frisar, sem que os restantes jogadores (21) se solidarizassem e sem que o árbitro interviesse. Uma vergonha!... Espera-se agora que os clubes de futebol e os poderes públicos reajam.

Mas este caso é muito importante porque questiona a ideia de que Portugal não é, nem nunca foi um país racista. Os inquéritos e os estudos acumulam-se para demonstrar que o fenómeno racista atravessa a sociedade portuguesa na escola, na habitação, no emprego, na vida social e nas relações com a polícia. Mais do que racismo, existe segregação racial. Como acentua João Marques, na sociedade portuguesa existe uma generalização de preconceitos, descriminação sistemática nas várias áreas da vida social, violência da linguagem e segregação residencial. Isto, apesar só 3% dos portugueses se considerarem racistas e 80.9% se virem como nada racistas.
O que distingue o racismo atual, que grassa por toda a Europa, do tradicional é de que existia uma mitologia de “colonialismo suave”. Esta mitologia, desenvolvida Gilberto Freyre na “Casa Grande e Senzala” estruturou-se sob a forma de luso tropicalismo. Agostinho da Silva chama-lhe “modo de ser português”.

Esta mitologia foi adotada pelo Estado Novo sob a capa de integração racial; que o diga a política de assimilação, o Código do Indigenato que fixava os africanos à terra, impondo-lhes um regime de servidão.
Mas o racismo foi sempre uma constante da história de Portugal. Primeiro contra os os mouros que foram expulsos, ou acantonados; depois contra os judeus que foram obrigados a converterem-se para não serem expulsos e ainda no século XVlll tinham que provar a pureza do sangue para poderem ocupar cargos públicos, sem falar na escravatura e tráfego negreiro. Ainda nos finais do século XlX os barcos negreiros de bandeira portuguesa circulavam entre África e América do Sul. Hoje começa a falar-se de escravatura, mas é bom lembrar que durante centenas de anos foi um comércio tanto ou mais rentável do que o das especiarias do oriente.

Os portugueses não são melhores, ou piores do que os outros colonizadores, só que sendo menos numerosos, cultural- mente mais atrasados e mais pobres, viram-se forçados muitas vezes a estabelecer laços mais apertados com os denominados indígenas. Daí o mito do colonialismo suave, do luso tropicalismo e do não racismo. Mas sublinho, como se demonstra pela reação da extrema- direita ao caso Marega.

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