Correio do Minho

Braga,

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Questo non é l’ombelico del mondo

O problema do vira-lata!

Ideias

2015-02-16 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Há cerca de um mês, escrevi neste espaço sobre o drama das vítimas, maioritariamente crianças, reféns do grupo Boko Haram na Nigéria. Um drama humanitário que decorria enquanto “…a Europa se prepara para uma nova etapa de intoxicação em medidas anti-terrorismo” e enquanto “…a Europa vive (…) dividida entre os que temem o pequeno gigante da esquerda radical [leia-se o Syriza, vencedor das eleições legislativas gregas do passado dia 25 de Janeiro]; [e] os que preferem acreditar numa espécie de Syriza domesticável, imediatamente rendido após a vitória eleitoral à lógica amoral do Poder Político.”

Decorrido um mês, a minha crónica de 19 de Janeiro mantém-se (infelizmente, acrescento) muito actual.
O grupo Boko Haram prossegue a sua marcha de brutalidade, desta vez dando-lhe uma dimensão internacional ao atacar o vizinho Chade, o primeiro país a tomar a dianteira da ofensiva militar contra o grupo fundamentalista. A crescente força do Boko Haram levou inclusivamente a Nigéria a adiar para 28 de Março, as eleições legislativas e presidenciais que estavam previstas para 14 de Fevereiro, e para 11 de Abril as eleições dos governadores que estavam agendadas para 28 deste mês, tudo isto na tentativa de conseguir reunir mais condições de segurança.

A violência no Mundo não pára aliás de nos entrar casas e olhos adentro, todos os dias.
Venha essa violência da Ucrânia - onde menos de cinco dias após a Cimeira de Minsk na Bielorrússia, poucos acreditarão ainda na viabilidade do cessar-fogo, sobretudo com a intensificação neste fim-de-semana da batalha dos separatistas pró-russos pela posse da cidade de Debaltseve, no nordeste de Donetsk.

Ou venha a violência do Sudão do Norte, onde, segundo um relatório da Human Rights Watch agora publicado, terão ocorrido violações em massa de mulheres e de crianças, em finais de Outubro de 2014, perpetradas pelos militares do regime de Omar Al-Bashir sob quem pende um mandato de prisão pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e contra a Humanidade. O relatório dá conta em particular da violação de mais de duas centenas de mulheres no espaço de dia e meio, só na localidade de Tabit, situada na região do Darfur Norte.

Não menos violenta e já tristemente banal, chega a notícia de trezentos imigrantes (ainda que não se saiba exactamente quantos) que perderam a vida também na última semana, naquele que é sem dúvida um imenso cemitério às portas da Europa: o Mar Mediterrânico.
Em simultâneo, pouco ou nada mudou na Europa do pós-Syriza. Na verdade, o nosso continente segue rodopiando sobre si mesmo, como um velho cão atrás da própria cauda. Tal como expectável, o batalhão de medidas antiterrorismo a que aludi em Janeiro, está já em marcha.

A olho nu, tudo o que permita identificar extremistas que entram no espaço Schengen vindos de zonas de combate ou sob controlo de forças radicais; investigar a propaganda na Internet que alicia os jovens para grupos fundamentalistas; ou desmantelar redes de financiamento terrorista, parece-me muito bem-vindo. Menos bom será porém o impacto que muitas destas medidas acabarão por ter sobre o quotidiano de normalíssimos cidadãos europeus, com um espaço de acção cada vez menor para os seus direitos cívicos, e com uma percepção cada vez menos optimista sobre os benefícios de uma Cidadania Europeia.

Da mesma forma, também se confirma o que escrevi a propósito da relação da Europa com a Grécia pós-eleições. À medida que avança o périplo de negociações de Tsipras e de Varoufakis pelas capitais e instituições europeias, aumenta o timbre nervoso e apreensivo na voz dos que teimam em acreditar numa mudança paradigmática com epicentro no parlamento ateniense. Ao mesmo tempo, cresce o coro da tragédia grega, com presença muito significativa, diga-se, de toda uma comunicação social que parece ansiar por esse espectáculo final que será o claudicar definitivo de um bando de românticos marxistas, por fim resgatados à hipnose de contos infantis pela mão severa mas reconfortante da autêntica maturidade.

Neste registo, o coro da tragédia faz por isso questão em sublinhar que afinal os “tipos” já querem negociar com a troika dando-lhe outro nome (já estão a meio de claudicar, portanto) e afinal, nem são marxistas genuínos, tresandam a ‘cheiro capitalista’, ou não andasse um deles com um cachecol Burberry ao pescoço. Um lenço Hermés de milhares de euros no pescoço da Sra. Lagarde, parece incomodar menos estas almas de boa moral, que sabem tudo sobre política, percebem tudo sobre economia e estão quase, quase a desvendar a fórmula para os males da Europa (só lhes falta o ‘quase’), do que o aleivoso acessório de um professor universitário grego.

Talvez devesse então apresentar-se nas reuniões do Eurogrupo com roupa de ‘fardo’, a cheirar a naftalina, dois números abaixo do seu, e a conversar como se fosse infinitamente menos esperto do que o líder do Eurogrupo, o Sr. Jeoren Dijsselbloem. (Desde que o Sr. Dijsselbloem teve de retirar do seu Curriculum Vitae em 2013 a referência ao grau de Mestre em Economia Empresarial que afinal nunca teve, e assim por via das dúvidas, fico-me pelo “Sr.”, não vá descobrir-se mais adiante que lhe caiu mais algum grau académico).

Nada de novo pois, neste inverno europeu que persiste, rodeado por um Mundo que não pára para nos ver. Afinal, ao contrário da música do Jovanotti, questo non é l’ombelico del mondo.

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