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2017-12-29 às 06h00

José Manuel Cruz

Em França, o PS foi varrido do panorama político. Pelos erros crassos da governação de Hollande, e pela cegueira estratégica de Benoît Hamon que, sucedendo-o, se apresentou a eleições de pelo ao vento, devendo saber que perderia, que jamais suplantaria Mélenchon. A par do PS francês, por lá quase desapareceu, em acréscimo, o Les Républicains, isto é, a rebaptizada UMP. Mudar de sigla não adiantou. Dos partidos que rodavam no Eliseu, ambos se tinham fatalmente desacreditado. Poderia pender a eleição para a estrema esquerda - Mélenchon - ou para o polo oposto, para a senhora Le Pen. Surge o consensual e salvífico Emmanuel Macron. Assisti de perto, em parte, e posso atestar que o marketing político é imbatível, quando adubado por dinheiro a rodos.

Vem esta resenha a propósito de uma frase de Rui Rio, e da resposta a ela dada por Coelho, na oração de sapiência proferida em prenúncio do abandono de funções. Engana-se, Coelho, quando dá o desejado pelo certo: o PSD pode - claramente - tornar-se irrelevante. Contudo, credito-lhe o facto de que ele, nem de perto, nem de longe, foi tão absurdo quanto Hollande. Coelho saiu vitorioso de um ciclo governativo dificílimo. Saiu vitorioso, mas derrotado em seguida, unicamente por não ter preparado uma mudança conveniente de atitude e de discurso. Burrice dele? Burrice da equipa de suporte? Podem contrapor-me que é fácil fazer o desenho de trás para a frente. Insisto, de todo o modo: estava na cara!

Rio tem razão, embora para mal dos seus pecados. O PSD precisa de ganhar elã, de atrair novos aderentes, de expandir a dita massa crítica. E logo com ele à cabeça? Afigura-se pouco crível, não acham? Militando Macron na classe dos petulantes, onde Rio está como peixe na água, tinha a seu favor o facto de se apresentar como o dique viável às enxurradas anti-Bruxelas, ameaça que entre nós não se coloca. Lopes afina pela mesma bitola de Rio, pelo que qualidades adicionais não lhe encontrarão.

A nenhum se tem ouvido ideia galvanizante, projecto de sociedade que catapulte Portugal para lá de si mesmo. Ter ideias é um cabo de trabalhos. Ser convincente, carismático, é uma dor de cabeça. Visando o eleitor sensato, aspirando a uma transformação integral do País, Rio acaba de apresentar uma moção regeneradora. Falhou o pódio por dias. Melhor aconselhado, Costa vem de fazer um discurso para uma vintena de anos. Será o croquis de Rio mais interessante que o do adversário socialista, ou do competidor interno?

O Poder desgasta, e por vezes de modo abrupto. O eleitorado que determina o curso de uma votação flutua, por calinadas dos governantes, por anseios frustrados ano após ano. Exageros, como os de Sócrates, é possível que já não vejamos, mas é um calhar. Na Câmara de Lisboa, segundo se diz, preveem estourar uns milhares de euros em cartolas. Até pode ser uma iniciativa engraçada, até pode proporcionar um par de belas fotografias promocionais. O fabricante das cartolas até pode ser remotamente aparentado a um dos encomendantes. Gastar dinheiro em cartolas não é necessariamente pior do que queimar dinheiro em fogo-de-artifício, ou em mais três ou quatro grupos pop-rock, numa maratona musical. Tudo tem lugar, e para a mais estrambólica das iniciativas se aprontam belíssimos argumentos. É ver, aqui em Braga, a sinalética cacofónica da via pedonal-ciclável. Alguém achou aquilo um must. E consta que terá vindo de fora, que seria para que não ficasse o sentimento de arranjo caseiro.

Emmanuel Macron sugou 60% do eleitorado francês com um partido unipessoal, criado em decalque das iniciais do seu nome - En Marche. Pedro Santana Lopes, embora tivesse tido o insight de um certo Partido Social Liberal, arrepiou caminho, e renovou votos com o partido de sempre, que aspira a liderar para nosso descanso e maior satisfação. Desconheço se o Rui Rio teria chegado a imaginar uma força social à sua medida, o que seria em si um desafio de monta: Partido Realista Republicano?

Em qualquer dos casos, os pê-esse-dês enfrentam um trilema: ou Lopes, ou Rio, ou nenhum, posto que nenhum deles tem o suficiente para fazer subir o partido nas sondagens. Apresenta-se, o duo, como que encarnando cada um deles seu programa. Não vale uma palavra de honra por uma ideologia, não servem meia-dúzia de acólitos como folha de rota em que tudo acabe por aparecer ao ritmo certo e na sequência conveniente. Aborrece-me o retrocesso, sinto que regressamos a Luis XIV, ao «l’etat c’est moi». Não sei porquê, mas parecem-me inchados, a rebentar pelas costuras. Será hélio? Estarão a ponto de se elevar nos ares, feitos aeróstatos, para bater com a época do Luís?

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