Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Quem tem medo da verdade?

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2018-03-27 às 06h00

Jorge Cruz

Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso!
(Bertolt Brecht)

Hesitei bastante antes de me decidir pela abordagem deste tema e confesso que ainda agora, frente ao computador, tenho sérias reservas quanto à oportunidade de a ele me referir. Faço-o, contudo, porque acredito que estamos a ser confrontados com uma história mal contada, uma narrativa encenada com uma boa dose de falsidade.
Refiro-me, obviamente, à discordância entre o Sporting Clube de Braga e a Câmara Municipal, um diferendo que, se levado às últimas consequências, ameaça colocar em risco a segunda fase da cidade desportiva do clube bracarense.
Aparentemente, as posições dos dois contendores extremaram-se, fazendo antever dificuldades extraordinárias para solucionar a divergência, embora nos últimos dias tenham surgido alguns sinais de que os problemas vão ser ultrapassados.

Na origem do diferendo está a posição inflexível do SC Braga relativamente à minuta do contrato, documento que, segundo António Salvador, foi elaborado sem conhecimento do clube, e daí refutar a cedência de um espaço de 800m2 dentro da 2.ª fase da cidade desportiva para usufruto do município, como pretende o município. Aliás, garante ainda que nos últimos dois anos o SC Braga fez insistências conducentes ao entendimento entre as partes, sem qualquer sucesso. Esclarece, finalmente, que a recusa em subscrever o contrato apresentado pelo município se ficou a dever ao facto de ter sido informado do mesmo apenas na véspera da escritura, pelo que não aceita a acusação de incumprimento.
Esta versão é, entretanto, contrariada pelo presidente da Câmara, o qual afirma de forma peremptória que estava acordado pela teoria e pela prática (?), explicando que não tomamos nenhuma posição que não tivesse sido, previamente, validada pelo SC Braga. E vai ainda mais longe quando sublinha: convictamente ou não, mas a verdade é que as validaram nas várias reuniões que tivemos de preparação desses documentos, que foram submetidos ao executivo e à assembleia municipal. Portanto, para Ricardo Rio não há lugar a qualquer dúvida, conforme enfatiza ao falar de um compromisso que foi assumido e que aparentemente não quer ser respeitado pela parte do SC Braga.

As versões dos dois responsáveis são, pois, claramente contraditórias: enquanto António Salvador, em defesa da sua posição, refere um mail de 26 de Novembro de 2015, portanto da véspera da sessão da Assembleia Municipal que aprovou a minuta do contrato de concessão do direito de superfície, Ricardo Rio nega a existência de tal comunicação. Ou seja, encontrámo-nos num impasse do qual só poderemos sair quando se descobrir quem está a faltar à verdade. Sim, porque de facto é disso que se trata, como de resto bem lembrou o líder do principal partido da oposição, Artur Feio, quando concluiu, sem qualquer receio das palavras, que alguém está a mentir.
Teremos, naturalmente, de aguardar a evolução do processo, mas com a certeza de que, qualquer que venha a ser, os principais intervenientes não sairão dignificados. E não saem porque em funções como as que ambos desempenham impõe-se um maior grau de exigência, um nível superior de maturidade, que impeça que os seus diferendos sejam discutidos na praça pública.

Entretanto, o que parece fora de hipótese é a ideia avançada por Ricardo Rio, de o SC Braga compensar o município. Na missiva enviada ao presidente da Câmara, António Salvador torna claro que o clube não pode nem deve substituir-se ao Município, assumindo as suas responsabilidades e levando a cabo a construção de um pavilhão, complexo desportivo ou edifício para a prática desportiva que o Município quer desenvolver na sala de 800m2 acima referida, ou adaptando infraestrutura já existente para o efeito, destinado à fruição exclusiva do Município e dos munícipes.
Assim sendo, ao afirmar-se indisponível para assumir qualquer encargo conexo com as mesmas, pois, entende não ser essa a sua função enquanto entidade privada, António Salvador faz voltar o processo ao início.
Esse terá sido também o entendimento de Ricardo Rio que, agora, parece abrir uma porta ao anunciar que essa alternativa, esse novo cenário, terá que ser apreciado pelos mesmos órgãos que deliberaram originalmente sobre a proposta e o acordo que foi estabelecido. Ou seja, surpreendentemente, o presidente da Câmara evidencia agora uma inesperada abertura para a resolução do diferendo e parece fazê-lo patrocinando de certa forma as teses de António Salvador.

O mais relevante agora será resolver o imbróglio que está a retardar a conclusão do ambicioso projecto que a cidade desportiva representa para a cidade e para a região. O que não invalida, nem deve impedir, o apuramento de todos os contornos deste desencontro e, consequentemente, que se conheça a identidade de quem está a mentir. A acreditar na existência do famigerado mail, não deixa de ser curioso que os sinais de discordância tenham ocorrido antes das últimas eleições autárquicas mas só tenham sido publicamente divulgados agora, já num novo mandato autárquico e após o resgate da concessão do estacionamento à superfície. Coincidências

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