Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Quem pensa você que é?

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2012-04-20 às 06h00

Margarida Proença

O título desta crónica é a tradução de um programa de televisão (‘Who do you think you are?’), que passa num dos canais da televisão por cabo. Sendo aparentemente um programa de genealogia onde pessoas famosas pro- curam informações sobre antepassados, na verdade trata-se de um forma interessante de um documentário sobre as alterações económicas, sociais e políticas que ocorreram desde meados do século XIX.

Na Inglaterra, o tremendo esforço, o custo elevadíssimo em termos sociais que representou a Revolução Industrial, a fome na Irlanda, as emigrações maciças para os Estados Unidos, mas também a extraordinária circulação de pessoas por toda a Europa, fugindo das guerras, de conflitos políticos, de perseguições religiosas e de condições económicas por vezes terríveis. Comemorou-se por estes dias os 100 anos da tragédia do Titanic; a sociedade retratada nos filmes e nas séries da época também já não existe há muito.

A primeira das guerras mundiais que marcaram o século XX haveria de começar apenas dois anos depois. Portugal de 2012, com todos os problemas e dificuldades, com esta crise que teima em persistir e o desemprego recorde, está apesar de tudo já bem longe do país bem pobre de há 100 ou mesmo 50 anos atrás.

Apesar de tudo, a herança que nos deixaram foi notável. Inegavelmente, a democracia e os direitos políticos tornados extensivos fizeram a diferença e justificaram um aumento significativo das despesas públicas com o bem-estar social. Foi talvez na saúde onde os efeitos positivos se fizeram sentir de forma mais clara (na série a que acima me refiro, são inúmeros os casos de famílias onde a taxa de mortalidade infantil ultrapassava os 50%).

A esperança média de vida à nascença em Portugal é hoje de 75,28 anos para os homens, e 82,01 para as mulheres, mas em 1920 era apenas 35,8 anos e 40 anos e em 1960 não ultrapassava os 60,7 e 66,4 anos, respetivamente. Esta evolução verificou-se em quase todo o mundo, até mesmo em África, embora de uma forma menos clara.

A Revolução Industrial alterou profundamente os processos produtivos, e o notável progresso tecnológico que ocorreu ao longo do século XX reforçou as modificações nas formas como se produz e se trabalha. Desapareceram profissões, como foi sempre acontecendo ao longo da história e outras passaram a quase só poderem desempenha-das em países como a China ou a Índia.

Os salários foram, gradualmente, tendendo a ser cada vez mais diferentes, ou seja mais desiguais; a pressão dos novos países emergentes vai no sentido da diminuição salarial para garantir a competitividade em sectores mais maduros ou profissões que não exigem muita sofisticação. No futuro, este tipo de profissões apenas estará garantido se estiverem associadas à prestação de serviços onde a localização seja um requisito essencial, por exemplo eletricistas para resolver problemas imediatos em casa.

Mas as alterações tecnológicas foram muito além da esfera da produção; trouxeram a tec-nologia para dentro das nossas casas e alteraram a forma como vivemos e comunicamos uns com os outros. A perceção que temos do funcionamento das instituições, e as exigências que colocamos em termos de transparência e prestação de contas são também um resultado do progresso tecnológico, como o é a capacidade e disponibilidade de informação do que se passa em todo o mundo.

No fundo, e na linha do que argumenta Acemoglu num paper que acaba de disponibilizar, talvez não tenha sido o progresso tecnológico por detrás da Revolução Industrial ou aquele que tem vindo a ocorrer desde a segunda metade do século XX a “fazer” o mundo que herdamos ou vamos deixar em herança, mas antes a forma como as instituições funcionaram e como conseguiram definir os incentivos adequados, capazes de gerar oportunidades em termos de inovação.

Acemoglu distingue entre instituições “inclusivas” e “exclusivas”; as primeiras são capazes de assegurar que as pessoas participem na atividade económica e na vida política, enquanto no segundo caso tal acontecem com frequência situações do tipo da Guiné Bissau. A inovação surge quando é possível pensar de forma livre, e existem de forma mais ou menos clara incentivos para tal.

Por aqui, na Europa, no mundo ocidental, tivemos todos a sorte de ter recebido uma herança que nos garantiu crescimento económico e qualidade de vida. Vivemos na Europa verdadeiramente a única fase de paz em toda a sua longa história. Mas temos agora muitas mais pessoas em casa, e os primos distantes que vivem na Ásia reivindicaram a sua quota da herança...

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