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Quem ainda se interessa pela Filosofia?

Os amigos de Mariana (2ª parte)

Quem ainda se interessa pela Filosofia?

Escreve quem sabe

2021-11-27 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

No passado dia 18 de novembro, quinta-feira, celebrou-se, uma vez mais, mundialmente, o dia da Filosofia. À semelhança do que se tem observado na última década ou por aí quase não se deu conta da sua ocorrência. Nenhum órgão de informação de massas o assinalou. É notório, e não é coisa recente, o desinteresse cada vez maior que a Filosofia suscita dentro e fora do sistema educativo. Ouvem-se aqui e ali menções à sua importância, até mesmo à sua necessidade, em particular porque fornece “ferramentas para o pensamento crítico” – expressão francamente enfadonha! – dizem, mas depois o seu estudo nos ensinos pré-universitário e universitário mirra a cada ano, os eventos filosóficos ficam com salas desertas, a presença de filósofos no espaço mediático, inclusive quando se discutem questões com aspetos e contornos filosóficos, é praticamente nula. Talvez tenhamos, então, de reconhecer que o cosmólogo britânico Stephen Hawking e o físico estadunidense Leonard Mlodinow acertaram quando em 2010 passaram a certidão de óbito do saber filosófico.

Os dois cientistas publicaram conjuntamente nesse ano o livro The Grand Design (O Grande Desígnio) – e também cinco anos antes o popularíssimo Breve história do tempo – no qual usam o segundo parágrafo do capítulo inaugural, pomposamente intitulado “O mistério do Ser”, para declararem em tom ribombante que embora tradicionalmente as grandes questões metafísicas e existenciais que inquietam os seres humanos tenham recebido respostas filosóficas, tal já não é viável simplesmente porque “a Filosofia está morta” (p. 5). E qual a causa identificada para o decesso? Carência de uma vitamina epistémica: informação científica. Em suma, a Filosofia, segundo Hacking e Mlodinow morreu por não ter tomado a ciência suficientemente a sério e, por conseguinte, se ter tornado socialmente irrelevante como fonte de conhecimento para lidarmos com as referidas grandes questões.

É evidente que estas declarações de finamento ou, pelo menos, de obsolescência da Filosofia não são novas. Há entra- das de enciclopédias especializadas dedicadas ao tópico “Fim da Filosofia”, já anunciado tantas vezes que foi promovido, ele mesmo, a tema da própria reflexão filosófica. Neste aspeto, ainda que a Ciência se possa tomar a si mesma como objeto de estudo, uma vez que existem estudos científicos sobre a Ciência, não o faz do mesmo modo que a Filosofia que se auto-problematiza. Porém, quando a reflexão filosófica começa a olhar para o seu umbigo e a sentir a necessidade de repensar a sua legitimidade, isso é sintoma do seu profundo mal-estar. Entra naquele estado cataléptico em que a Filosofia em Portugal há muito se encontra por ter como principal ou único assunto na sua agenda discutir se há ou não uma filosofia portuguesa. Os exercícios metafilosóficos afastam a Filosofia do mundo da vida e servem, de algum modo, para dar razão a Hawking e Mlodinow.

Ironicamente, os dois cientistas foram acusados de praticar nessa obra “filosofia morta”. O livro que escreveram é encantador, estimulante e constitui verdadeiro alimento para o espírito, mas também de uma can- dura filosófica que faz sorrir. As perguntas helénicas que recoloca continuam tão misteriosas como sempre, mesmo depois de muita literatura, reli- gião, filosofia e ciência. É por isso que vamos continuar a investigá-las, mais não seja porque elas estão ligadas ao grande temor que temos, enquanto humanos, de podermos gastar as nossas existências sem conseguimos uma resposta para elas, condição para a vida com sentido a que aspiramos.

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