Correio do Minho

Braga, terça-feira

Que surpresas nos reserva 2017?

Dar banho às virgens

Ideias

2017-01-03 às 06h00

Jorge Cruz

No início de cada ano é habitual proceder-se a análises prospectivas dos trezentos e tal dias que se seguem, quase sempre com enormes doses de optimismo, mas a verdade é que tais exercícios decorrem mais de uma certa tradição do que propriamente de um súbito ataque de confiança no porvir.
Claro que um cenário mais ou menos cor-de-rosa, um quadro pintado com tons idílicos, é sempre bastante mais encantador do que a tela que reflecte a realidade nua e crua. Mas é com esta que nos teremos que defrontar, uma realidade que nem sempre é do nosso agrado, porque é uma realidade que frequentemente nos causa inúmeros dissabores e muitas vezes nos maltrata.

Por natureza sou optimista mas tal não significa que não esteja ciente de que a chamada lei de Murphy, segundo a qual “qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”, poderá surgir quando menos se espera. Quero com isto significar que, por precaução e tendo em conta os múltiplos sinais, devo assumir uma postura de confiança no futuro próximo, sim, mas com enormes reservas.

Com efeito, no plano internacional, onde tudo que acontece necessariamente tem reflexos no nosso país, o panorama não é muito animador: à enorme incerteza sobre a postura do próximo Presidente dos Estados Unidos juntam-se as grandes dúvidas sobre o futuro próximo em alguns estados europeus e nas próprias estruturas comunitárias. Isto para não falar, entre outros, de Kim-Jong Un, que garante que a Coreia do Norte se prepara para testar um míssil balístico internacional, de Erdogan, de Putin, de Asad, de Maduro, de, de,…

A entrada em cena de Donald Trump causa inevitavelmente enorme apreensão tendo em conta as diversas posições assumidas em campanha por este multimilionário que se assume anti-sistema. Entre outras, não nos podemos esquecer das suas fanfarronices sobre a capacidade nuclear americana, que ele pretenderia reforçar, sobre a guerra comercial com a China, que aumentaria potencialmente as tensões políticas e diplomáticas, sobre a imigração e os refugiados, que ele rejeita, sobre o Acordo do Clima, que ele pretenderia rasgar, enfim, um extenso rol de propostas disparatadas que, a serem aplicadas, transformaria o mundo num lugar menos agradável e menos seguro.

Mas no espaço europeu o quadro também não é mais animador: ignoramos como será concluído o processo do Brexit bem como as consequências que terá para o resto da Europa; não sabemos que postura vai ter o BCE quer quanto à política monetária quer em relação às ajudas aos países mais debilitados; e, finalmente, estamos muito apreensivos com os resultados das próximas eleições em três dos mais “fortes” países europeus - Alemanha, França e Itália.

Digamos que a nível internacional uma das poucas notícias animadoras poderá decorrer do início de funções do novo Secretário-Geral da ONU, pois as qualidades do “nosso” António Guterres são bem conhecidas e, por outro lado, tem sido consensualmente reconhecido nos meios políticos e diplomáticos que o seu perfil é, no actual momento, o mais adequado para as extraordinariamente difíceis funções que vai desempenhar. Aliás, há já quem arrisque, como o The Guardian, que Guterres tem tudo para ser o melhor secretário-geral das Nações Unidas de sempre.

Conclui-se, portanto, que subsistem ainda alguns pingos de esperança, algumas nesgas de alento, ou seja, e parafraseando o meu saudoso amigo Manuel António Pina, conclui-se que “ainda não é o fim nem o princípio do mundo, calma é apenas um pouco tarde”.

Para a resolução de alguns problemas mundiais parece, de facto, ser um tanto ou quanto tardio, até pelas gravíssimas consequências da persistente inacção de quem já os poderia ter solucionado. Mas como a esperança é sempre a última a morrer, há que manter viva essa chama.
De resto, no plano interno o governo de António Costa veio confirmar isso mesmo, que as palavras do poeta Manuel António Pina estavam certas, que há sempre tempo para corrigir erros, para reparar injustiças, enfim, para promover o regresso a uma certa normalidade.

Aliás, curiosamente, será talvez a nível interno, neste belíssimo espaço geográfico que já deu novos mundos ao mundo, onde, porventura, poderemos arrecadar as maiores alegrias. Isso é facilmente perceptível através da mensagem do Presidente da República, de cujas palavras se pode inferir que o país está no bom caminho. De resto, Marcelo Rebelo de Sousa não se coibiu de elogiar a acção do governo de António Costa em 2016.

Ora, a prossecução desse rumo, agora que foram vencidas as primeiras batalhas e corrigidos alguns dos erros da anterior governação da coligação de direita, é o desafio que se impõe numa acção política de continuidade que hoje em dia visa um maior crescimento económico e um planeamento a um prazo mais longo. É, pois, tempo de acção, tempo de avançar para novos desafios ou, por outras palavras e como diria José Saramago, outro grande e saudoso amigo, “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

13 Novembro 2018

Braga Capital

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.