Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Que se lixe!?

Cancro do Pulmão – de que morrem os portugueses

Ideias

2013-10-27 às 06h00

Carlos Pires

1. A semana que findou foi “cinzenta”, a todos os níveis. Fomos assolados por chuvas e ventos, como se em pleno e rigoroso inverno estivéssemos, o que não nos ajudou na (cada vez mais difícil) tarefa de elevarmos o espírito. As notícias veiculadas de igual forma não auguram “bons tempos”.
Lá por fora ficamos a saber que, em França, berço dos princípios “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” - saídos da revolução de 1789, inspiradora das democracias modernas -, o desemprego aumentara. A par, paradoxalmente, aumentam ainda os sinais de xenofobia: afirma-se que romenos, ciganos e búlgaros devem ir para casa; detém-se uma jovem cigana há muitos anos (ilegalmente) aí residente e integrada, à frente dos seus colegas, durante uma visita de estudo promovida pela escola que frequentava.
Cá dentro assiste-se à degradação das relações diplomáticas com Angola, em virtude da investigação criminal que o ministério público português prossegue visando cidadãos da cúpula política angolana. Por um lado, é certo, o poder político não se pode imiscuir no poder judicial, dita o princípio de separação de poderes. Por outro lado, nós necessitamos do dinheiro angolano e é uma irresponsabilidade criar problemas diplomáticos com um país que está, neste momento, a investir em Portugal.
Destes dois exemplos podemos extrair uma conclusão: a descriminação, o ódio, a prepotência e a perda dos princípios crescem em ambientes economicamente instáveis - outras “crises” a somar às já existentes. Que se lixe? Não!


2. Os portugueses vivem mergulhados no desânimo. Não surge, aos olhos das pessoas, nenhuma alternativa política que lhes permita ter um horizonte de mudança. Nem um protagonista que lidere essa alternativa. Na mensagem dos responsáveis políticos lusos e europeus há um défice de notas de esperança e energia positiva.
Vem esta referência a propósito das manifestações ocorridas ontem, em várias cidades portuguesas, convocadas pelo movimento 'Que se lixe a troika' - um protesto que decorre da proposta do Orçamento do Estado para 2014. Não fora o facto de grande parte das pessoas já ter “o estômago colado às costas” e certamente o povo - o tal que insistem em conotar como de “brandos costumes” - não sairia para as ruas.
Já no final da semana visitei, como habitualmente, uma empresa com a qual trabalho, sediada em Braga. O gestor, um homem com pouco mais de 30 anos de idade - doravante designado por “J”-, empresário desde os seus 20 anos, mostrou-me as recentes obras de adaptação que tinha realizado nas instalações da empresa, tudo de forma a abarcar dois novos negócios - um na área dos vinhos e outro na área da agricultura - totalmente distintos dos que desenvolvera com predominância até hoje - na área do comércio têxtil. Com o investimento - relatou-me - pretende diversificar o risco e conquistar espaços no mercado que, no seu entender, constituem verdadeiras oportunidades.
O “J” não tem investimentos em território angolano nem está dependente dos petro-dólares; o “J” cria postos de trabalho em Portugal. O “J” não esteve presente nos protestos de ontem, não obstante compreender e aceitar as razões dos manifestantes. E não esteve presente porque durante o dia de sábado teve que desenvolver atividades no âmbito das suas empresas - os negócios que, apesar de tudo e de todos, teima (loucamente?) em promover neste país. O “J” não baixa os braços nem dele ouvimos palavras de desistência. Do “J” não ouvimos frases do tipo “que se lixe isto ou aquilo” - a única coisa para a qual está sinceramente a “lixar-se” é para os políticos, nos quais não acredita. O “J” procura as soluções para os problemas que diariamente lhe vão surgindo; o “J” sabe que dele depende a vida que para si (e para os seus) quer.
O exemplo do “J” salvou-me a semana: a prova viva de que são aqueles que revelam audácia e coragem, aqueles que demonstram espírito empreendedor, que conseguem ultrapassar as dificuldades e obstáculos, que conseguem reinventar-se. E que é graças a pessoas como o “J” que eu acredito que há futuro para Portugal.
E hoje, domingo, já há sol!

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