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Que Natal?

Geraldo Henriques

Que Natal?

Voz aos Escritores

2019-12-20 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

As luzes nas cidades lembram-nos a época que se aproxima, em coro com o calendário voraz, servidor de um deus tempo sorvedor de vidas. A chuva, que nos escorre outras vontades, ajuda também a diluir o entusiasmo que nesta época se torna contagiante. Uma espécie de inebriação, um melhoramento esporádico disto a que se chama humanismo.
Entretanto li nas notícias que os impostos vão aumentar no próximo ano, de forma a garantir um excedente orçamental de 0,2% do PIB. E li logo a seguir que 600 milhões de euros (podem confirmar, por favor, se julgam que estou a alucinar) vão ser transferidos para o Novo Banco. Até quando esta ilusão governativa se vai aguentar sem nos rebentar na cara, ou melhor, na carteira? Que moral pode este governo passar para os funcionários que também sustentam o Estado no zelo do dinheiro público em nome do mesmo que somos todos nós?

E levantam-se vozes de fantasmas passados, umas mais pretéritas do que outras, a lembrar histórias de vidas mais compostas e outras mais decompostas pela minoria dominante. Levantam-se ainda vozes no panorama político com pele de cordeiro, mas a disfarçar muito mal a garra que nos há-de dar o nó na mordaça.
Pelo meio somos inundados por publicidade, músicas e coros de Natal que nos fazem crer que está tudo bem. Assim como assim é Natal outra vez, como todos os anos, haja comida e bebida na mesa, uns trocos para as prendas e a azáfama do costume. Tudo encaixa como um quadro eterno a tentar sobrepor-se ao etéreo.

E já ninguém fala do menino sírio morto na praia da Turquia, afinal já foi em 2015, e do que representa, como ninguém fala do bebé deitado ao lixo, sem um trapo que o protegesse do frio do Inverno, a gritar a desumanização do gesto. E esse foi este ano. Assim como também ninguém parece ter muito interesse em distinguir refugiados de migrantes ilegais, que aproveitam a desgraça alheia muito oportunamente. As notícias sucedem-se como modas e indignações instantâneas. Não deixam grande rastro de memória ou de trabalho na origem do problema.
Não me interpretem mal: eu gosto do Natal. À promessa inerente ao nascimento prende-se uma forma de renovação, como uma hipótese de ser melhor, de ser mais luz. É a altura em que mais nos falam os que já não se sentam connosco à mesa. Seja através das rabanadas, do azeite a estalar, do chocolate quente ou do arroz doce.

O modo de fazer as intimidades domésticas, com mil variações no receituário, ou o simples cheiro que emprenha a casa de uma infância que não volta, mas que de alguma forma tentamos perpetuar nas gerações mais novas, como um tesouro cultural unifamiliar. Ainda bem que assim é e que possa sempre ser assim.
Mas revolta-me este cíclico aperto, este cilício que nos enterram na carne, sem que daí saia mais do que uma cicatriz na qual aplicamos um pouco de maquilhagem para nos convencermos que já passou, que não foi bem assim ou até que nem aconteceu.

A memória é um cultivo essencial para a sobrevivência. Ou melhor, para a vida. Para a perpetuação do que somos, do caminho que percorremos e do horizonte que queremos perseguir.
No entanto, e como no dia-a-dia não podemos estar em constante angústia e sofrimento mantendo alguma sanidade, cultivemos um pouco o humanismo fora da nossa porta a ajudar quem nos está à distância de uma moeda, de uma peça de roupa, de um prato de comida, de um telefonema ou de um café a romper a solidão. Às vezes, tão simplesmente um abraço, daqueles bem redondos.
Há muitas formas de fazermos a diferença, com maior ou menor relevo, antes de assobiarmos para o lado e assumirmos a cegueira branca que Saramago tão bem retratou.?

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