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Que mundo é este?

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Que mundo é este?

Ideias

2021-12-26 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Prestes a terminar o ano de 2021, completamos dois anos desde o início da pandemia. Deste modo, proponho-me, aqui, a fazer um pequeno balanço dos aspetos que marcaram a nossa sociedade durante este período de tempo.
Assim, durante estes dois anos apreendemos palavras e conceitos que não proferíamos no nosso vocabulário diário. Desde logo o termo Covid-19 passou a fazer parte, termo que temos ouvido e lido dezenas de vezes por dia!
Antes da pandemia estávamos habituados aos contactos pessoais, aos beijos, aos cumprimentos, aos abraços, ou seja, à afetividade e à proximidade.
Antes da pandemia estávamos habituados a observar as brincadeiras entre as crianças, sendo estas frequentes e aconselhadas, bem como a troca e a partilha de bens entre as pessoas, o convívio entre os jovens, o contacto pessoal, as conversas realizadas também com leitura facial de olho e/ou lábios, sem máscara, de forma natural e transparente. Antes da pandemia os jovens deslocavam-se livre e descontraidamente para a escola ou para a universidade, fazendo-o em grupos, conversando, abraçando, beijando.
Antes da pandemia estávamos habituados à frequência de locais de convívio, como os cafés com clientes, os restaurantes livremente frequentados, os bares participados, os ginásios concorridos, as discotecas cheias, as bibliotecas a incentivar à leitura e ao contacto com os livros.

Antes da pandemia estávamos habituados a participar livremente em batizados, casamentos ou outros eventos religiosos e até funerais.
Antes da pandemia estávamos habituados a frequentar e a admirar espaços culturais de forma livre, como teatros, cinemas entre outros espetáculos.
Antes da pandemia participávamos livremente em eventos desportivos, expressando o estado de espírito conforme as derrotas ou as vitórias, celebrando-as de forma entusiástica e com uma alegria permanente e expressiva.
Desde há dois anos que estas rotinas mudaram repentinamente, rapidamente, sem ninguém estar preparado. Fomo-nos adaptando diariamente, a pouco e pouco, mudando rotinas, contactos, afetos…
Há dois anos que estamos a ser frequentemente informados e alertados para termos cuidado, muito cuidado, com tudo e com todos os que nos rodeiam. As máscaras escondem agora os sorrisos das pessoas. Vivemos numa sociedade da distância e da desconfiança.
Há dois anos que temos sido informados, a cada minuto, a cada hora, todos os dias, ininterruptamente, do número de infetados que nas últimas 24 horas, do número de internados, do número de mortos, na nossa região, em Portugal, na Europa, no Mundo.

Há dois anos que temos sido massacrados com termos que até aqui raramente tínhamos ouvido falar. Refiro-me ao “caso confirmado” ou ao “caso suspeito” ou ainda à “contaminação”. Mas deste rol de palavras acrescentamos: “Imunidade”, “Incubação”, “Isolamento”, “Quarentena” ou “Zaragatoa”. O momento que vivemos, marcado pela incerteza e pela constante ilusão de que tudo isto vai passar e “vai ficar tudo bem” leva-nos a questionar “Ficará como antes?”.
Há dois anos que temos sido impedidos e/ou aconselhados a evitar visitas aos doentes nos hospitais, aos lares de idosos ou noutras instituições de saúde e de solidariedade social, mantendo esses doentes ou utentes em isolado sofrimento familiar, que contribui para uma perturbação psíquica mais acentuada, cada vez mais notória.
Há dois anos que temos sido aconselhados a evitar a participação em casamentos, ficando os novéis casais associados a uma data especial, mas marcada pelo distanciamento e pelo isolamento.
Desde há dois anos somos aconselhados a evitar a participação em funerais, nem sequer a nos despedirmos de forma digna dos familiares ou amigos mais próximos. Vivemos agora numa sociedade da distância e da desconfiança.

Desde há dois anos que o isolamento social é o comportamento mais aconselhado. As crianças sentem-se inseguras e ansiosas nos locais que frequentam e os jovens vão perdendo uma importante fase da sua vida, de diminuição do convívio e de socialização, num processo que ainda está por determinar quais as consequências que daí advirão.
Que mundo é este em que vivemos, quando sabemos que aumentam cada vez mais as apólices de seguros para animais de estimação, que incluem despesas de saúde e até de funerais, diminuindo por outro lado os seguros para jovens?
Que mundo estranho é este em que vivemos, quando sabemos que aumentam os idosos abandonados nos hospitais e em lares? Há dois anos que o isolamento social dos idosos (com mais de 65 anos) tem sido uma constante. Existem cerca de 44 500 idosos isolados ou a viver em Portugal numa situação de grande vulnerabilidade. São idosos que não recebem a visita de familiares ou amigos, vivendo o seu dia a dia entre a solidão de quatro paredes, tendo a maioria deles a rádio ou a televisão como companhia.
As respostas para o mundo que estamos a criar devem ser dadas por cada um de nós, começando pela introspeção que é necessário fazer, questionando aquilo que somos e aquilo que queremos para a sociedade onde nos inserimos.
Desejo a todos um ano de 2022 repleto de paz e saúde.

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