Correio do Minho

Braga,

Que futuro?

Serviços de pagamento: mudaram as regras

Ideias

2011-03-11 às 06h00

Margarida Proença

No fundo, esta é a grande questão que colocamos; a resposta depende em grande medida do maior ou menor optimismo e sentido crítico de cada um. Haverá quem pense que basta uma nova liderança, um novo governo, para que as coisas mudem. Desliga a luz e volta a ligar, que os problemas resolvem-se. Haverá emprego para todos, de preferência na porta ao lado de casa, crédito fácil, compras, carros e viagens ao outro lado do mundo, reforma o mais cedo possível, saúde paga, por aí fora.

No que respeita à educação de nível superior, não se sabe muito bem o que fazer, já que mui-tos estudantes não arranjam imediatamente emprego seguro, para toda a vida e a ganhar bem desde logo. Talvez não valha a pena estudar, parece ser o que decorre disto.
Depois, há os ultra-pessimistas, aqueles que dizem que Portugal não tem saída, que nunca teve nem terá, concluindo basicamente que não vale a pena - não se sabe muito bem o quê.

Desistindo desde já, porque é difícil mudar de cidade para encontrar um outro emprego, porque a cidade é grande, ou pequena, ou longe, porque é complicado estudar e todos dizem que afinal não vale a pena, enfim , “não se vai lá”. Nos dois discursos, parece que vem sendo comum a valorização da educação enquanto mero instrumento de acesso a um “clube de elite” em termos de remuneração do trabalho e de garantia de emprego. O que de facto corresponde à desvalorização do valor da educação em si, que sempre esteve mais ou menos presente na nossa cultura.

O problema é que qualquer das duas visões do futuro estão, na minha opinião, erradas. O mundo mudou profundamente. A globalização destruiu a noção das fronteiras. A palavra “emigração” não faz nenhum sentido na Europa; aliás, uma das condições para que o euro se mantenha passa exactamente por isto, por um verdadeiro mercado de trabalho, aberto e flexível, em contexto Europeu. À semelhança do que acontece nos Estados Unidos, onde a uma boa oferta de trabalho se responde mudando da costa leste para a costa oeste, se necessário.

O mundo mudou, porque a entrada em cena dos países emergentes, como a China, a Índia, o Brasil, caracterizados pela lei dos grandes números, levou a uma tendência clara de descida dos salários. O mundo mudou porque a tecnologia alterou o significado de perto e de longe, alterou mesmo a noção do tempo. O mundo mudou porque há mais concorrência no mercado global.

O mundo mudou porque a informação se tornou um bem a que muitos mais têm acesso, que deixou de ser possível controlar completamente, com os resultados que vamos vendo pelos países árabes onde não existia democracia. O mundo mudou porque é rigorosamente necessária a contenção nas despesas públicas para que se consiga salvar o bem-estar social, porque no sector público, como aliás em grande parte dos serviços, mesmo a tecnologia não permite um acréscimo significativo na produtividade.

Conforme lembrava um reputado economista, tocar a 9.ª Sinfonia de Beethoven requer fundamentalmente o mesmo número de músicos hoje, em pleno século XXI, que requeria no início da segunda década do século XIX. Com ga- nhos lentos na produtividade, é absolutamente urgente ser eficiente e rigoroso na utilização dos dinheiros públicos, para que quem precise possa de facto deles usufruir. O mundo mudou porque se sabe hoje que os efeitos redistributivos da protecção social não são suficientes para garantir a erradicação das desigualdades, da pobreza e da exclusão social.

E finalmente, o mundo mudou, porque a acumulação de conhecimentos, a educação, se tornou uma porta fundamental - ainda que não assegure, hoje, o “tal” emprego seguro, ao pé de casa. Por cá, ou aceitamos de vez que os salários tenderão a baixar, mesmo perigosamente - ou aceitamos de vez que a produtividade tem de aumentar a sério, e que se terá de continuar a investir a sério na educação. E lembrar aos nosso jovens, que apesar da crise, é por aí que o futuro corre.

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