Correio do Minho

Braga, sábado

Que futuro próximo para o Brasil?

Mobilidade Sustentável

Ideias

2018-02-02 às 06h00

António Ferraz

Acrise económica, social e política no Brasil tem vindo a agravar-se dia a dia significando que estamos perante uma conjuntura típica das fases em que o velho ciclo está acabando e o novo ainda não se firmou. Assim, tem surgido factores de distorção da Democracia, mormente nostalgia por parte de algumas elites dos tempos da ditadura militar, apologia de uma intervenção militar “purificadora” e aumento do fundamentalismo religioso. Recentes sondagens aos brasileiros indicam que são muito altos os índices de desaprovação da acção do Presidente Michel Temer, do seu Governo (após a destituição “golpista” da Presidente democraticamente eleita Dilma Rousseff) e do Congresso Nacional (onde prevalece um número muito elevado de deputados e senadores indiciados por corrupção). Este cenário deve-se em grande medida a implementação de políticas de cariz neoliberal impostas ao povo brasileiro num claro retrocesso face às conquistas trabalhistas anteriores: ofensiva nos salários, perda de direitos e garantias laborais (reforma trabalhista!), ajustamento orçamental severo, privatizações de empresas nacionais estratégicas, alteração conservadora do ensino médio e ataques à segurança social (reforma do previdenciário!). Tudo isso visando garantir a maximização de lucros do grande capital nacional e estrangeiro nas áreas industrial, financeira e agronegócio, devido a fragilidade conjuntural dos trabalhadores e sindicatos.
Sendo assim, podemos questionar sobre o que esperar do Brasil num futuro próximo. Pensamos existir quatro grandes cenários alternativos para a sociedade brasileira, uma questão aliás muito importante quando se aproxima a próxima eleição presidencial no Brasil (Outubro de 2018). Esses cenários incorporam as opções estratégicas para que o Brasil seja um país progressivo, com uma sociedade mais livre, justa e solidária.
(1) Cenário Inércia: uma via pouco animadora, fazendo prevalecer a fragmentação social e a cultura do curto prazo, daí resultando um claro retrocesso social e a manutenção da economia tradicional, primária e exportadora. Este é sem dúvida o pior dos cenários;
(2) Cenário Crescimento: apresentando um avanço parcial face a realidade presente e tendo por foco o crescimento económico, sem maiores preocupações com a inclusão social;
(3) Cenário Social: de igual forma apresentando um avanço parcial em que predomina o enfrentamento da dívida social pela actuação sobretudo na redução das profundas desigualdades económicas e sociais, mas, à custa do dinamismo económico e da geração de emprego e de rendimento;
(4) Cenário Crescimento e Social: apresentando um avanço global em que as metas sociais e económicas convergem, estabelecendo as bases para o aparecimento de uma sociedade inclusiva, dinâmica e inovadora.
Ora, as estratégias de desenvolvimento centradas no crescimento económico, sem considerar a importância da inclusão social, tendem a ter avanços mais modestos, igualmente, as estratégias centradas na inclusão social, não promovendo a dinamização da economia, tendem a ser incompletas uma vez que aposta apenas nas políticas sociais e como tal podendo ser prejudicada pela escassez de recursos para financiá-las, resultando daí que as actividades económicas mantenham-se pouco inovadoras, pouco geradoras de emprego, rendimento e receita fiscal.
Parece-nos, assim, que o quarto cenário a que chamamos de “Crescimento e Social” será o melhor para a sociedade brasileira, ao fazer convergir as políticas sociais e económicas num quadro estratégico de desenvolvimento de longo prazo integradora também dos vectores territorial e político-institucional. Neste caso será fundamental que a governação brasileira futura consiga uma maior coordenação entre o investimento público e privado através de um planeamento consistente de curto, médio e longo prazo permitindo o ataque aos problemas estruturais da economia e sociedade brasileira, nomeadamente quanto ao desfasamento existente tecnológico face aos países desenvolvidos.
Na verdade, o Brasil dada a sua concentração de áreas produtivas e nas exportações em “commodities” (bens alimentares, energia e minérios, etc.) faz com que o país esteja muito dependente da volatilidade dos seus preços nos mercados mundiais. Sendo assim, a economia e sociedade brasileira podem ser mais dinâmicas, pois tem a vantagem de possuir um vasto mercado interno, abundantes recursos naturais e possuir uma forte carteira de investimentos em infra-estruturas.
Resumindo, será necessário que a governação brasileira tome medidas concretas num quadro planificador que fortaleça as cadeias produtivas instaladas, incentive sinergias nas áreas da educação, cultura, ciência, tecnologia e inovação e, por fim, promova a justiça e o bem-estar social.
Se tal suceder, certamente haverá uma maior produtividade do trabalho, uma maior diversificação produtiva, uma maior competitividade externada e, em consequência, mais crescimento sustentável.

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