Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Que é feito da solidariedade política?

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2013-01-08 às 06h00

Jorge Cruz

“Nunca se sabe se daqui a quatro anos venho outra vez. Nos próximos quatro anos não serei presidente, aliás recusei ser novamente presidente da câmara municipal não neste concelho mas noutro”.

Estas palavras não têm como autor um qualquer jovem autarca. Quem as proferiu há dias foi um dos autarcas-dinossauro da democracia portuguesa, um homem a caminho de completar 37 anos à frente da Câmara Municipal de Braga.
O surpreendente e extemporâneo “discurso” de Mesquita Machado merece ser analisado minuciosamente uma vez que, até por vir de quem vem, encerra algumas curiosidades, além de causar óbvias perplexidades.

Das diferentes leituras que as palavras do experiente político permitem haverá duas ou três que me parece interessante analisar, até porque acredito que será através delas que se poderá encontrar a explicação mais plausível para tão inopinadas declarações.
Ao admitir a possibilidade de regresso parece lícito poder subentender-se que Mesquita Machado não acredita na vitória do PS ou, acreditando nela, que o candidato socialista não é do seu agrado.

Na realidade, se partirmos do pressuposto de que o PS vai manter a Câmara de Braga torna-se difícil de perceber as motivações que podem levar um homem como Mesquita Machado a enfrentar um correligionário político para tentar o seu regresso. A explicação mais plausível, neste caso, só pode ser, de facto, alguma insatisfação pessoal com a personalidade escolhida pelo partido.

Por outro lado, no hipotético cenário da perda da autarquia nas próximas eleições, a declaração corresponderia à expressão de uma vontade de tentar a sua recuperação, mas a verdade é que o mero facto de equacionar tal hipótese coloca Mesquita Machado numa posição bastante incómoda perante os seus camaradas.

Como quer que seja, e embora ninguém saiba o que vai na cabeça do ainda presidente da Câmara, duas coisas me parecem absolutamente claras: com esta posição pública, impensada ou apenas irresponsável, Mesquita Machado mostrou que para si a solidariedade, pessoal ou política, não é mais do que um mero vocábulo e, por outro lado, veio também dizer que afinal o tão apregoado desapego ao poder é uma falácia.

A polémica declaração política de Mesquita Machado terá, eventualmente e no que ao concelho de Braga respeita, um aspecto positivo. É que ao dizer o que disse, ou seja, ao dessolidarizar-se do seu vice e até do próprio partido, concedeu ao candidato socialista a carta de alforria, facultando-lhe todas as condições para, se assim o entender, se demarcar de uma ou outra das decisões mais controversas dos últimos mandatos.

Conhecendo a formação e a sensibilidade humana e política do candidato do PS o olhando para o lema escolhido para a sua campanha nas eleições internas da concelhia do partido, “honrar o presente, preparar o futuro”, acredito que tal nunca sucederá. Até porque, e conforme o autarca também sublinhou a título de balanço dos seus mandatos, “a obra maior, em termos globais, foi termos um desenvolvimento harmonioso em todo o território”. E esta é uma herança de peso, que obviamente, um candidato socialista não rejeita tanto mais que, como também frisou Mesquita Machado, “demos qualidade de vida a todos os cidadãos”. Mas que as condições estão criadas, lá isso ninguém pode negar.

Mas para além dos “estragos” provocados em Braga, o velho militante socialista conseguiu ainda criar alguns danos colaterais fora do concelho de Braga, quando se gabou de ter recusado “ser novamente presidente da câmara municipal, não neste concelho mas noutro”.
Claro que presunção e água benta cada um toma a que quer, mas dizer que se rejeita um cargo electivo sem primeiramente se submeter a eleições, partindo do pressuposto errado e mais próprio de um qualquer regime de coronéis de que seriam favas contadas, é de facto inadmissível.

Mas com esta confissão de Mesquita Machado aos jornalistas ficamos também a saber que algures no distrito haverá nas próximas eleições autárquicas um candidato socialista que é uma segunda escolha. Creio que nenhum partido merece que um único militante e apenas com uma breve declaração lhe provoque tanto dano.
Infelizmente, porém, este não é um caso isolado, bem pelo contrário, os maus exemplos pululam e não são um exclusivo do PS. Neste particular, aliás, o PSD também alberga um leque variado de autarcas afectados pela síndroma da perda de poder ou de ensandecimento.

Valha-nos ao menos a boa acção que Mesquita Machado também diz ter praticado: “Exerci influência sobre o secretário-geral do PS para não deixar ninguém do PS concorrer a outros municípios”, afirmou, mostrando-se convicto que o “espírito da lei” assim o pretende. A prudência e a lucidez, que Mesquita Machado mostrou no caso dos presidentes ambulantes ou saltitantes, de que são paradigmas, entre outros, Luís Filipe Menezes e Moita Flores, são bens cada vez mais escassos. Na passada semana, por exemplo, pelo menos um deles não chegou para a totalidade da conferência de imprensa. E é uma lástima, quando assim acontece.

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