Correio do Minho

Braga, terça-feira

Quase um silêncio

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2017-05-26 às 06h00

José Manuel Cruz

O minuto de silêncio foi cortado por uma deflagração: um novo atentado acabava de ter lugar.» Quão longe estará um jornalista de iniciar um trabalho com semelhante frase?
Creio não me enganar, se disser que boa parte dos portugueses despertou para o terrorismo urbano de nova geração, esse de inspiração islâmica, com o ataque ao Charlie Hebdo. Por peculiar conjugação, nesse dia, saía crónica de minha autoria nestas páginas, tendo por título “ocidente e jihad”.
Dou de barato que, por cada atentado perpetrado, dez, ou mais, são abortados a tempo pelos serviços de segurança. Estranha contabilidade que a ninguém descansa, porque quanto maior for o número dos interpelados, dos detidos, mais enraizada se insinua a ideologia do cruzado desprezível, do usurpador cristão, que urje exterminar a eito, ainda na infância, ou antes das borbulhas, eventualmente nas vésperas da primeira comoção amorosa.
Compreendo que não se afronta a irracionalidade com absurdos de sinal contrário. Aceito que haja pessoas que se esforcem por manter vias abertas, que procurem conter os ânimos, que tudo façam para prevenir o agudizar dos conflitos. Mas acho que começa a faltar-nos o nervo.
Dizia, o trumpíssimo presidente americano, que não designaria por “monstros”, mas por “falhados” aqueles que acções terroristas cometiam, como a recente em Manchester. Falhados? Um falhado não faz mal a ninguém, senão a si, pelas oportunidades que perdeu, pelos vícios a que se entrega. Falhado, é esse que passa ao lado do sucesso, não este que atropela os sentimentos, a integridade e a vida de outro individuo, por horrores que dele pense. Pode lá o homem ter um vocabulário tão reduzido, pode lá ele não saber graduar atitudes, valores ou pessoas!
Andávamos nós com o terrorismo em solo gaulês a revolver-nos as entranhas, e não faltava quem aos franceses não assacasse responsabilidades - que ostracizavam os muçulmanos, que os estigmatizavam, que lhes denegavam condições de progressão na vida e sucesso. E até com o mayor de Londres lhes atiraram, que na Inglaterra é que sim… Lembram-se?
Cada novo atentado desperta a sugestão milagrosamente imbecil do reforço das medidas de segurança: então em concertos e festivais!.. Bombista suicida que se preze, contenta-se com vintena de anjinhos para se amparar na entrada do paraíso, e mais não precisa do que de artigos de drogaria e de loja de ferragens. Democratizou-se, o terrorismo, está ao alcance de qualquer um. Vivemos, no fundo, na época radiosa do terrorismo de massas. E não precisa, um aberrante rapazoto, de estar no recinto da festa, basta-lhe encontrar-se no magote dos que emperram o acesso ao torniquete de triagem. Como pode o reforço das medidas de segurança suster terroristas a posteriori, pois de alguns bem que os serviços de informação dizem que os tinham fichados, mas com baixo índice de perigosidade, ou que os vigiavam, mas que ludibriado haviam o controlo?
A cada novo atentado lá vem um que remonta todo este calvário à guerra do Iraque, às tropelias de Bush e seus braços direitos. Sei não! Entendamo-nos: as acções homicidas perpetradas no ocidente mais não são do que extensões do terrorismo intra-islâmico, fratricídio em que as potencias ocidentais em estupida hora decidiram tomar parte, mas do pior lado - o sunita.
O terrorismo é filho do ódio por banda do pai e da mãe, mas não se vê que se imponham a organizações vagamente religiosas as normas de perseguição policial e de restrição de movimentos que se aplicam a seitas ou movimentos vincadamente supremacistas, racistas e xenófobos. Não há um xeique da pasta que esteja atrás das grades, pois não.
Enchem-nos de cruzados, de conquistadores: nós? Então não são eles que aplicam penas capitais a quem se converta a outra religião, eles que, por seu lado, não se cansam de fazer proselitismo na Europa? Os agressores: nós? E não são eles que nos atiram com o que têm à mão de semear, no seio da nossa cultura, por aplicação de lições bem estudadas com o amigo americano - a lição da guerra preventiva, e a lição de que o globo, todo ele, lhes levanta comichões geoestratégicas, e de que não há cantinho onde o tio Sam não ache que tenha de meter bedelho?
Com segurança não vamos lá. Sairíamos do pesadelo se o amigo saudita se inspirasse no amigo americano e rabiscasse umas emendas ao Corão, que permitissem, por exemplo, excomungar quem matasse em nome da fé, declarar blasfemo quem apelasse ao ódio, e que as penas fossem extensíveis à família directa. É que a nós não nos respeitam, mas ao clã, sim. E pronto, era uma vez os falhados. Viste, Tump.

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