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Quase nada

Vida e Obra de Paulo Freire – Parte III

Quase nada

Voz aos Escritores

2023-05-29 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

No poema "Quase nada", de Eugénio de Andrade, diz-se que o amor é uma ave a tremer nas mãos de uma criança. Li esta belíssima metáfora há muitos anos, e nunca mais esqueci a imagem da ave a tremer (como treme uma ave?) nas mãos amorosas de uma criança. Que veriam os seus olhos? O que sentiria? Como se traduz tudo isto na palavra «amor»? Curiosamente, ao escrever neste bloco de notas "o amor é uma ave", o famoso (mas estúpido, por vezes!) algoritmo arremessou-me a expressão "o amor é uma aventura", talvez porque o contexto autoriza mais esta do que aquela. Por associação de ideias, lembrei-me imediatamente do filme com esse mesmo título, que vi há tempos, com o Jeremy Irons armado em organizador de caterings, que me mostrou a comicidade de determinado tipo de relações amorosas, em que se dá aos outros o que não temos para nós. A ideia de um amor que é uma ave é deslumbrante, mas embate, na nossa realidade vivente, nas circunstâncias, essas coisas muito importantes de que nos falava Gassett. Porque, correspondendo a emoções profundas, encontra pelo caminho surpresas (ó quantas!) e desafios infindáveis, implicando riscos que nem todos são capazes de assumir nas suas complexas consequências, porque tal assunção exige espinha dorsal muito flexível e um coração à prova de bala.
Para quem tem, pelo menos, um leve sentido poético, o amor é a corola com a abelha dentro. A abelha valoriza a flor, que lhe retribui. Se neste mundo de loucos, o que não é loucura é proibido, como compreender o labor do inseto, que por vezes somos nós?

Pense na seguinte cena e conclua sinceramente. Numa avenida da cidade, sob um sol abrasador, um homem de meia-idade encontra-se estendido no lajedo. Ergue uma mão e com voz débil diz "açúcar, água, açúcar, água". Passam vários transeuntes alheios ao facto, até que um jovem de t-shirt azul o vê, compreende imediatamente a situação e corre até à esplanada do café em frente. Sem pensar duas vezes, dirige-se a uma mesa, pega num refrigerante sem pedir autorização e volta a correr até ao homem estendido no chão.
Dá-lho de beber e ajuda, com outra pessoa, a pô-lo na sombra. Aos poucos, o homem reage e aparenta ficar bem. Este jovem foi, decididamente, a abelha na corola. Não contava, certamente, com a reação do dono do refrigerante que, desabrido, apenas viu um roubo e foi incapaz de compreender o contexto. Viverá no mundo dos loucos e, por conseguinte, será incapaz de sentir amor? Quiçá nunca será abelha. Como libará as corolas desta vida?

Comparando as metáforas, qual terá mais valor? A primeira, puramente nocional, ou a segunda, que remete para uma ação salvífica? Quem pensará nas abelhas como as salvadoras do mundo? O amor é medível com este tipo de craveiras, com este tipo de metáforas? Como se mede o amor? Não saberemos, com certeza, responder a este tipo de perguntas. O melhor é senti-lo, transformá-lo em aventura. Talvez esteja aqui explicada a razão por que escrevi estas palavras, pensando em aves trementes, em abelhas, em mãos puras de criança… Nos meus filhos, nos meus netos, em todas as crianças que têm de aprender o que é, a sentir e a viver o amor. ?

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