Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Quantos são, quantos são!..

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2016-04-03 às 06h00

José Manuel Cruz

Será o tema sério demais para que lhe dê por título expressão tão próxima de certo burlesco, mas é o que me acode após o sabido anuncio da DAESH: Portugal seria praça a ponderar em novo ciclo de atentados.
Ameaça tomada como séria, e um reforço de medidas de vigi-lância e protecção são anunciadas: para a Portela? Para a totalidade do território nacional? Talvez os ministros e os especialistas da segurança em causa fiquem tranquilos com o reforço da visibilidade policial no aeroporto. Eu, nem por isso. Quanto um ataque a uma infraestrutura aeroportuária, ou a uma rede de metro, não ponham em cheque a normal circulação de pessoas, as rotinas do dia-a-dia de um segmento da população, mais eu me daria ao cuidado de recear operações com um nível superior de letalidade levadas a cabo em circunstâncias que nenhuma vigilância possa obviar. Proíbo-me de indicar alvos e oportunidades, porque a estupidez não deve ser incentivada, porque nenhum pesadelo quereria eu ter como reflexo de uma inconfidência, e só espero, no fundo, que o cérebro de um suposto comando terrorista al-burtughali não faça mostra de mente tão torcida quanto a minha.
E assim sendo - em que rua ou praça, em que dia ou evento, é que nos poderemos sentir seguros e confortáveis? Nunca?
Passamos pela experiência de operações terroristas que, não sendo directamente connosco, nos despertam para a iminência de sermos nós os visados, um dia, inadvertidamente, por má sorte, por nos encontrarmos em sítio anódino a hora fatídica. Aqui, em Paris, concretamente à La Défense, cruzo com regularidade corredores de um complexo comercial e de transportes que notório é que constitui alvo apetecido do terrorismo islâmico francófono. Poderia não ir lá, mas é o que me dá mais jeito para as compras maiores.
Talvez me diga que por lá passe em horário matinal, momento em que, terrorista que se preze, ainda se encontra a recuperar das fadigas de solene despedida de solteiro, pois, não havendo como ter setenta virgens à espera no paraíso, bom é que avisado moço de cá parta sabendo o que o espera do outro lado em multiplicados. Na verdade não me iludo com a ironia, pois bem sei que nada impede mártir apressado de entrar ao serviço com uma direta no pelo.
Assim se dá que frequento La Défense por minha conta e risco, e tenha eu como muito mal empregues as munições ou os gramitas de explosivo com que possam vir a despachar-me desta para melhor, como quer que seja não acho graça nenhuma ao dispositivo de segurança posto em prática. Mas lá abro eu a pasta ou saca de tiracolo, para que um segurança de meia tijela se certifique que não sou portador de miniatural kalashnikov ou engenho deflagrante, dispositivo que por outra passaria completamente inapercebido, digamos, se envergasse elegante colete sob rechonchudo anoraque em dia de provado frio.
E já nem digo que tudo o que faça falta para um grande arraial não possa transpor portais em horas mortas, dissimulado nos fundos de inocente palete de frutos ou vegetais, ou não se refira, a propósito do aeroporto de Bruxelas, que uma parcela significativa dos que por lá trabalham têm simpatias asseveradas à DAESH, alguns com cadastro criminal. Para arrepio me basta, no caso de La Défense, a boa meia centena a passar de pessoas que, a certa hora de dia, se amontoam diante de cada uma das portas à superfície. Os seguranças não dão vazão, a clientela acumula por um bom quarto de hora e escorre a conta-gotas. É só chegar alguém vindo do nada, encostar anonimamente… e bum! E lá foi a segurança para o maneta.

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