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Quando vier a Primavera

O estado de emergência e a prisão preventiva

Quando vier a Primavera

Voz aos Escritores

2020-03-20 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Alberto Caeiro

O Equinócio da Primavera marca hoje o fim do Inverno, um tempo mais triste, e o início da primavera. A natureza renasce, anunciando a chegada das flores, os dias mais longos e mais quentes, a vontade de sair, de estar mais tempo na rua, especialmente em boa companhia, e relembra que, mesmo depois do inverno mais cinzento da vida, o sol volta a brilhar e a proporcionar momentos de felicidade.
É assim que os Caretos de Podence despedem o inverno e saúdam a Primavera, numa explosão de alegria e animação.
É necessário aproveitar bem esses momentos, que, por vezes, são tão fugazes, tal como nos diz
Vinicius de Moraes:

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
E o que não falta aos Caretos de Podence é “vento”, visto que, na sua origem, estão associados à figura do “diabo à solta” e representavam os excessos, a euforia e a alegria permitidos nesta altura do ano, celebrando também a fertilidade da primavera que se aproxima. Na mesma linha de pensamento, Cecília Meireles fala-nos precisamente da fugacidade da felicidade:

És precária e veloz, Felicidade./ Custas a vir e, quando vens, não te demoras/. Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,/e, para te medir, se inventaram as horas./ Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:/ Fizeste para sempre a vida ficar triste:/ Porque um dia se vê que as horas todas passam,/ e um tempo despovoado e profundo, persiste.

Já para Fernando Pessoa,
a forma de relação sensacionalista com a realidade é que lhe basta, pois é a única que lhe fez saber a verdade e ser feliz, como podemos inferir nos seguintes versos:

Por isso quando num dia de calor/ Me sinto triste de gozá-lo tanto,/ E me deito ao comprido na erva,/E fecho os olhos quentes,/Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,/Sei a verdade e sou feliz.

Podemos, assim, afirmar que todas as pessoas procuram a felicidade. Aliás, os psicólogos salientam a importância da felicidade na vida das pessoas e a necessidade destas se conhecerem a si mesmas para conseguirem alcançar o bem-estar desejado. A felicidade relaciona-se não só com a personalidade, mas também com a disposição e a forma de estar das pessoas. Justifica-se, deste modo, o “Dia Internacional da Felicidade” que é celebrado precisamente no dia de hoje, 20 de março, com o objetivo de reconhecer a relevância da felicidade e do bem-estar como metas e aspirações universais nas vidas humanas em todo o mundo.

E se este objetivo fora importante aquando da sua criação, hoje, em plena pandemia mundial, é determinante para a nossa sobrevivência. Invoco, mais uma vez, um visionário na arte de escrever, José Saramago, a propósito deste tema tão bem retratado em “O Ensaio sobre a Cegueira” – a arte da escrita ao serviço da preocupação cívica. Romance contundente!Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. «Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como “um rastilho de pólvora”. Uma cegueira coletiva.

“Ensaio Sobre a Cegueira” é um livro que nos faz enxergar e, muito mais do que isso, nos faz temer a própria humanidade frente a uma situação de caos. A partir de uma súbita e inexplicável epidemia de cegueira, Saramago guia-nos para a desorganização e a superação dos valores mais básicos da sociedade, transformando as suas personagens em animais egoístas na sua luta pela sobrevivência.
Perante o cenário a que assistimos de açambarcamento de bens essenciais ignorando os outros, aproveitamos para lembrar o poder da palavra para abrir os olhos face ao risco de uma situação terminal. É que a vida é uma mescla, feita de felicidade e de dificuldades, de dúvidas e tropeços, mas também é preenchida por conquistas e descobertas.
Todos por todos!

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