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Quando o embalo da cadeira de baloiço se esvai

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Quando o embalo da cadeira de baloiço se esvai

Voz aos Escritores

2020-11-27 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

[…]
Na cadeira de baloiço,
tenho quilómetros de saudade,
adormecidos pela idade,
e ancorados nos sonhos
dos poemas que ainda não escrevi […]
Fernanda Santos


Quando o embalo da cadeira de baloiço se esvai, fica a memória das odisseias vividas na serenidade dos dias. É como de um contentamento descontente se tratasse. É sentir a aventura na ponta dos dedos e, simultaneamente, a saudade que aquieta este desassossego constante.
É na doce oscilação deste balanço que vou e venho do infinito para o infinito onírico e fervoroso. Ah! Como sinto o perfume dos cabelos grisalhos, entrançados na fragilidade dos meus braços! Como é suave a melodia que ainda continua a adormecer-me a rebeldia! É como um poente nostálgico, mas não necessariamente melancólico, tal como nos é definido pelo poeta Alberto Caeiro:
Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ter uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?
Não é ao acaso que cadeira de baloiço combina com alpendre e, consequentemente, com poentes cheios de poesia. Combina assim com abraço de amigo, demorado e ritmado, que só o coração conhece. Quando, ao longe, o mar nos convida a desnudar e o sol aquece o nosso eterno versejar, a cadeira de baloiço combina com liberdade. E mesmo sozinha balança-se, em dias de vento, como roupa nos estendais. É como o embalo da avó que vai tricotando histórias sem parar.
Falar da avó é viajar pelos bolsos do seu avental e mergulhar na culinária da sua perene imaginação.
Certamente que a esta hora já o leitor, menos apressado, percorreu a floresta com o Capuchinho Vermelho, sentiu o calor do caldeirão do pobre João Ratão ou a euforia do rebola cabacinha, rebola cabação, pum!0
Menos apressado, surge, também, o certinho do embalo da mãe que, cantando baixinho, amamenta a criança nesse sereno vaivém, que tantos poetas evocam. António Ramos Rosa é um deles, como podemos ler nos versos seguintes:
Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.[…]
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal.

Pois bem, imbuída dessa ânsia de amar, também eu quero fazer parte dessa onda incandescente e generosa, capaz de manter, eternamente, o meu coração e as minhas memórias com as portas e as janelas abertas de par em par. Contudo, perante a situação de confinamento atual, tenho pensado muito nas crianças, quando a porta da casa dos avós se fecha por precaução e as histórias se perdem nos silêncios e nas ausências. Evito pensar se, porventura, a porta da casa dos avós se fecha para sempre e as cadeiras de baloiço ficam por embalar. Ficarão, com certeza, muitas histórias por contar e outras tantas por escutar. Será ainda um dizer adeus às suas ternurentas canções, aos seus saberes, sabores e emoções.
Por isso, escancaro a porta da minha infância e recordo um tempo em que na solidão de suas paredes e recantos, se fechar os olhos e me concentrar bem, ainda ouço o eco do sorriso de minha mãe, preso nas memórias e ancorado nas lembranças. Lá está ela a embalar-me, com uma voz tão serena e tão bela!
Uma voz que balança ao vento, mas se mantém firme durante as tempestades. Confesso que tem sido esse embalo o meu seguro de vida, a determinação que se incrementa nas vogais da esperança.
Eis que duas estrofes de Miguel Torga se me afiguram como oportunas:

És e serás a faia que balança ao vento/
E não quebra nem cede!/
Se te pediu a paz do esquecimento,/ Também a força de lutar te pede!/
Respira, pois, seiva da duração,/Nos meus pulmões até, se te cansaste;/Mas que eu sinta bater o coração/No peito onde em menino me embalaste.
Volto para a cadeira de baloiço que se esvai, sinto, a cada oscilação, o pulsar do coração no peito da minha mãe e embalo os sonhos até ao amanhecer.

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