Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Quando eramos anjos

Uma Justiça que é tão cega

Conta o Leitor

2019-07-20 às 06h00

Escritor Escritor

L.J. Hope

Este mundo é cruel, feio e lastimável.
As palavras do seu irmão, de tempos a tempos, ecoavam na sua mente. Ela sempre falara com ele. Contava-lhe sobre as coisas mais triviais do seu dia, os seus problemas ou a forma como se sentia e brincava com ele o tempo todo. Quase que corria para os seus braços sempre que ele aparecia. E claro, o seu irmão mais velho respondia-lhe. Ouvia, ansiosamente, as histórias que ela tinha para lhe contar, acariciava a sua testa sempre que ela chorava entre os seus desabafos e não se importava de brincar com as bonecas, se assim ela o desejava... Ele nem se importava quando ela se esquecia dele e saía para a rua, brincar com os vizinhos. Da janela do seu quarto, ele observava-a. Atento para quando ela caísse da bicicleta e arranhasse o joelho ou para avisá-la de um carro que se aproximava... sempre ansioso pelo regresso da sua irmã.
Eu amo a minha irmã mais do que ninguém.
Mas os dois irmãos deferiam em algo para além da idade. E ambos sabiam-no. Ela era cheia de vida, alegre e carinhosa, com muita bondade para dar. Era uma rapariga ingénua e inocente, sem qualquer conhecimento do mundo, ao contrário do seu irmão mais velho. Mas a luz que emergia da presença dela preenchia a escuridão em que ele vivia. Sem saber ou lembrar-se como, ele tornara-se numa sombra. Era uma sombra viva, que refletia apenas ódio, raiva, medo, inveja, vingança e, por mais estranho que pareça, lealdade. Lealdade para com a sua pequena luz. Aquela que acordava todas as manhãs com um sorriso sonolento e adormecia com sorriso entusiasmado. Ele queria protege-la do mundo que conhecia, que sabia que existia no exterior. Ele sempre soube como o mundo realmente é. Por isso... ele avisou-a sobre tudo. No entanto, rapidamente percebeu que ela nunca seria capaz de conhecer o mundo cruel. Nela vivia também o perdão.
Solidão... Eu estou sozinho.
Anos se passaram e os irmãos foram crescendo. Um sempre na companhia do outro. Protegendo-se um ao outro, porque isso é o que irmãos fazem. Protegem-se um ao outro, não importa o quê. Lado a lado, de mão na mão. Sempre juntos. Então, um dia, ela percebeu que o seu irmão brilhava. Ele sorria e brilhava. Talvez ainda mais do que ela própria alguma vez brilhou. O brilho que emanava dele era capaz de iluminar uma cidade inteira. Ela sorriu com o pensamento. Finalmente, ele aprendera o gosto de viver. Já não conseguia ver mais aquela solidão familiar que tentara sempre fazer com que desaparecesse. E vê-lo feliz era maravilhoso. Por um tempo, ele parara de dizer que o mundo era cruel. Não mais viu tristeza ou medo nos seus olhos, nem raiva ou ódio nas suas palavras.
Ele queria viver. Pela primeira vez, ele abraçou a vida. O seu lado cheio de compaixão, amor e felicidade... ela adorou. Ele estava a saborear a vida e agora... ela poderia fazê- lo com ele. Eles podiam partilhar o mesmo sentimento maravilhoso da felicidade. Uma felicidade que o mundo que ele tanto odiava... lhe dera. E até chegou o dia em que ele, simplesmente, agarrou a sua mão e puxou-a para a vida.
Apenas o amor nos deixa ver coisas normais numa forma extraordinária.
Essas foram as palavras que se soltaram um dia, enquanto falava com a sua irmã. Através das experiências dela, ele conseguiu compreender esse simples facto. Ele sentia-a iluminado por algo que ele nunca vira antes.. e podia ver e senti-lo através da sua pequena irmã. E sabia bem. Ele queria sentir isso mais vezes e com mais intensidade. Era tão bom... que eventualmente teria que acabar. Embora nenhum dos dois tivessem essa noção, acabaria de uma forma cruel, feia e lastimável.
És o meu melhor amigo e o único com quem posso contar.
A luz acabara, quase de um dia para o outro. E com ela... o seu irmão mais velho desaparecera. Ele queria mais. Mais do que ele poderia ter. E mais uma vez, ele tornou- se numa sombra. Ela não o conseguia encontrar no seu quarto, nem mesmo à janela. Já não conseguia alcança-lo... Falar com ele, chorar ao seu lado... Tudo isso desapareceu com ele. Não importava o quanto ela tentasse, ele não podia ser encontrado. Mais uma vez, ele tornou-se numa sombra, desaparecendo na sua própria escuridão. Uma escuridão que ela começa a conhecer... Porque é que o seu irmão mais velho não poderia ser feliz? Porque é que o mundo era tão...
Na verdade, ela nunca o tivera a seu lado. Nem ele a tivera ao seu lado. A verdade era difícil de admitir. Mas a verdade é que ele sempre viveu dentro dela. Ou melhor, ambos viviam e partilhavam o mesmo corpo, embora ela fosse quem o controlava. Era ela que fazia as pernas e os braços mexerem-se.
O irmão mais velho que nunca nascera. Ela sempre sentira que ele esperara por ela. E eles viveram sempre no mesmo corpo por todos aqueles anos... mas agora, ele desapareceu.
Nós somos da mesma carne e do mesmo sangue. Eu estarei sempre aqui para ti. É para isso que os irmãos são.
Ela sempre sorrira, porque ela era a mais triste. Ele era o mais gentil, porque ele era o mais solitário. Agora, ela não conseguia brilhar mais. Já não era ingénua, nem respirava felicidade. Não mais. Ela precisava dele. Mas o mundo que ela amava tanto, que perdoava de todas as vezes, fizera-o desaparecer. Então ela apenas conseguia sentir dor no seu coração. Ela odiava-os. Sentia-se zangada com eles. Amargura e um desejo obscuro de vingança era... tudo o que conseguia sentir. O seu irmão mais velho caíra no abismo por causa de cada um deles. Era tudo mentiras e ilusões que uma alma, que nunca experienciara nada, queria acreditar naquilo que o mundo tinha para dar. Ela só o queria de volta. Ouvir a sua voz e as suas sábias palavras. Ela queria senti-lo a protege-la como sempre o fizera. Todo aquele tempo, todos aqueles anos... ela só o tinha a ele.
Agora ela conseguia perceber como o mundo era. Como funcionava e como sobreviver nele. Talvez, um dia, ele voltasse. Talvez... ele não tivesse morrido. Mas agora, ela era a única que restava. Não importava o que acontecesse, ela esperaria por ele. Até lá, ela viveria como ele viveu. Imersa na mesma escuridão.
Este mundo é cruel, feio e lastimável, irmão... igual à minha escuridão. Nada que alguém diga, pode consolar-me.

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