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Braga, sábado

Qual é o seu grau de literacia financeira?

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Escreve quem sabe

2011-11-19 às 06h00

Fernando Viana

Quando era criança, sempre tive um especial fascínio por histó-rias infantis em geral e em particular por fábulas, em que se atribuem qualidades humanas aos animais que as protagonizam, como por exemplo a da Carochinha e do João Ratão. Mas, uma que me ficou particularmente gravada na memória foi uma fábula atribuída a Ésopo e recontada por La Fontaine: a da cigarra e da formiga. Creio que na altura chegava mesmo a acreditar na veracidade das histórias e imaginava o dramatismo da situação com a pobre cigarra a bater à porta da casa da formiga num dia invernoso a implorar alimento. Ficava com a garganta seca perante a conclusão fria e cruel da formiga, após ter perguntado à cigarra o que tinha feito durante o Verão, ao que esta respondera que cantara: “Cantou? Pois então agora dance!”, foi a resposta seca e trocista da formiga ao mesmo tempo que fechava a porta, deixando a cigarra do lado de fora ao frio e esfomeada.
Vem esta introdução a propósito da realização da 1.ª Conferência sobre literacia financeira que o Banco de Portugal organizou no passado dia 8 de Novembro, e onde foram dados a conhecer os resultados finais do inquérito à literacia financeira da população portuguesa.
Este inquérito permite conhecer a atitudes e os comportamentos dos portugueses na actualidade no que toca à gestão das finanças pessoais e os seus conhecimentos financeiros básicos; de igual modo, identifica as áreas temáticas e os grupos populacionais com maior défice de informação e formação financeira.
Como escreve o governador do Banco de Portugal na apresentação do inquérito, 'A crise financeira internacional veio realçar a importância da literacia financeira e da tomada de decisões informadas pelos clientes bancários como forma de promover a eficiência e a estabilidade do sistema financeiro'.
Os resultados do inquérito dão que pensar: a importância atribuída pelos inquiridos ao planeamento do orçamento familiar não se reflecte na realização de poupança; e a importância atribuída à poupança não está em conformidade com o papel que esta tem na afectação apropriada nos recursos individuais ao longo da vida. O inquérito destaca importantes assimetrias nos níveis de literacia financeira de diferentes grupos populacionais: os mais idosos e os que têm níveis reduzidos de escolaridade revelam níveis de literacia financeira muito baixos; os mais jovens e os desempregados apresentam também níveis de literacia financeira abaixo da média. Ficou-se a saber, de acordo com este inquérito, que mais de um em cada dez portugueses gasta mais de metade do seu rendimento mensal com créditos; apesar de serem muitos os portugueses com crédito à habitação, mais de 60% não sabem o que é o spread; quanto à Euribor apenas 9% sabe que se trata de uma taxa que resulta dos empréstimos feitos entre um conjunto de bancos europeus.
O inquérito foi realizado entre Fevereiro e Março de 2010, através de duas mil entrevistas presenciais em todo o território nacional. Na próxima crónica iremos dar a conhecer os dados mais relevantes no que toca à inclusão financeira, gestão da conta bancária, planeamento de despesas e poupança, escolha de produtos financeiros, escolhe e conhecimento de fontes de informação e compreensão financeira. Contudo, caso queira ter acesso aos dados oficiais do inquérito, não deixe de consultar o sítio de Internet do Banco de Portugal, onde está publicada toda a informação sobre o “Relatório do Inquérito à literacia financeira da população portuguesa”.
Já agora e a terminar queria acrescentar que embora já não acredite em histórias infantis, continuo a acreditar piamente na importância pedagógica das fábulas. Pelo menos, no meu caso, ficou-me no subconsciente a preocupação de tudo devermos fazer para que não haja necessidade de bater à porta da formiga. Também a leitura deste inquérito sobre a literacia financeira devem ser objecto de muita reflexão neste momento de particular aperto financeiro.

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