Correio do Minho

Braga, sexta-feira

PS à espera de Godot

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2012-06-26 às 06h00

Jorge Cruz

Muito se tem falado e escrito sobre o próximo candidato socialista à Câmara de Braga e, em particular, quanto à identidade da personalidade que vai liderar a lista que protagonizará, em nome do Partido Socialista, o combate político com as forças da oposição.
Se antes das recentes eleições para a Comissão Política do PS a incerteza quanto ao “sucessor” do carismático Mesquita Machado era perfeitamente compreensível, já a manutenção da dúvida depois desse acto eleitoral parece-me um tanto ou quanto desajustada da realidade.

É certo que a essas eleições partidárias concorreram duas listas e apenas uma delas apresentava um candidato assumido à missão. Acontece, porém, que esse aspirante a candidato foi copiosamente derrotado nas urnas pelo seu opositor o qual, não obstante nunca ter assumido a candidatura à Câmara como objectivo primordial, sempre manifestou disponibilidade para tal. Ou seja, nas eleições para a Comissão Política do PS apresentaram-se duas propostas distintas - uma claramente a jogar na candidatura à Câmara e outra privilegiando o desafio partidá-rio sem, contudo, renunciar a liderar o combate autárquico.

Nestas circunstâncias, tendo em consideração, por um lado, a disponibilidade manifestada antes dessas eleições e, por outro, a retumbante vitória que nelas obteve, creio que agora Vítor de Sousa não poderá eximir-se a assumir a candidatura. Para ser consequente, terá de propor à Comissão Política o seu próprio nome para liderar a lista do PS nas eleições autárquicas do próximo ano.

Com efeito, não me parece que na actual conjuntura os arautos de soluções mais rebuscadas ainda tenham margem de manobra para procurarem ou sugerirem alternativas. Por um lado, porque o tempo começa a ser escasso para preparar convenientemente uma candidatura ganhadora, principalmente tendo em conta que o principal adversário político já está no terreno. Por outro lado, porque Vítor de Sousa, além de dispor de um capital político que lhe confere toda a legitimidade para assumir a candidatura, não pode agora defraudar o quase milhar e meio de socialistas que nele depositou a sua confiança.

Claro que não sou ingénuo ao ponto de pensar que este será o arquétipo de candidatura de todos os socialistas. Não me custa a admitir a existência de uma corrente que entenda ser mais apropriado iniciar o novo ciclo político com uma mudança geracional. Mas acredito que a candidatura do actual vice-presidente da Câmara tem inúmeras virtualidades.

Desde logo, o capital de experiência e de conhecimento, quer do ponto de vista autárquico quer na perspectiva político-partidária, que poderá transformá-la num projecto consensual que concorra para a unidade do partido em torno do objectivo que todos os socialistas perseguem a nível local, ou seja, manter a gestão autárquica nas mãos do PS.

Os actuais dirigentes do PS bracarense herdaram, de facto, a responsabilidade de conservar a Câmara de Braga e, de certa forma, essa herança tornou-se agora ainda mais pesada com as expectativas criadas aos inúmeros novos militantes trazidos para a actividade político-partidária quer pelos apoiantes de António Braga quer pelos de Vítor Sousa.

Também por essa razão, prolongar no tempo a escolha e consequente divulgação pública pode ser útil para alimentar ilusões deste ou daquele putativo candidato, pode ser aliciante, inclusive, para a chicana política em que alguns são exímios, mas é prejudicial para os interesses do partido. Nesta altura e nas circunstâncias actuais, quaisquer hesitações que resultem no protelamento do lançamento da candidatura constituem um clamoroso erro político que, a acontecer, poderá sair demasiado caro ao PS. E, apesar de tudo, não quero acreditar que algum socialista queira assumir a responsabilidade política de facilitar a vida à candidatura de direita.

“Quem fica na ponta dos pés tem pouca firmeza” dizia o sábio chinês Lao-Tsé. Não creio que depois das recentes votações ainda haja alguém no PS de Braga disposto ou disponível para se colocar em bicos de pés e fazer o papel anacrónico do calimero. Facultar aos opositores políticos mais argumentário do que aquele que já foi fornecido durante a recente campanha para as eleições internas - e que não deixará de ser por eles utilizado na altura própria - mais que um equívoco, seria uma imbecilidade que arrastaria inexoravelmente o PS para a oposição. E propor ou avançar mesmo com números de prestidigitação também não me parece adequado.

Admito que da cartola possam sair vários nomes, alguns até de baixa previsibilidade, mas recuso-me a acreditar que a política e o ilusionismo tenham alguma coisa em comum. Aliás, da última vez que num partido retiraram um coelho da cartola foi o que se viu - ainda estamos todos a so-frer as consequências.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

21 Setembro 2018

Pecado Original

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.