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Provavelmente o discurso mais importante do ano

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Provavelmente o discurso mais importante do ano

Escreve quem sabe

2020-12-12 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

No passado dia 2 de dezembro, António Guterres fez mais um importante discurso de alerta sobre “O Estado do Planeta”, desta feita na Universidade de Columbia em Nova Iorque. Imaginei-o a sair da sede da ONU onde tem o seu gabinete, em Murray Hill, a ir pela rua 42 até à 5ª Avenida e depois a seguir na direção da parte leste de Manhattan, atravessar o Central Park e a sair junto ao bairro Morningside Heights para o proferir na centenária academia estadunidense. Um bom e higiénico passeio a pé de cerca de hora e meia.

O nono Secretário-Geral da conhecidíssima instituição intergovernamental, à semelhança de personalidades como o Papa Francisco e a ativista sueca Greta Thunberg, tem feito incansavelmente alertas a todos os povos da Terra de que é urgente “fazermos as pazes com a natureza”. Segundo ele, esta é mesmo “a tarefa fundamental do século XXI e aquela que o vai definir”.
Consciente da gravidade da situação, que piora a olhos vistos, não poupou na linguagem, usou palavras duras, incómodas, causadoras de apreensão e ansiedade: “o planeta está em falência”, “a humanidade trava uma guerra contra a natureza”, “é um comportamento suicida”, “a natureza sempre contra-ataca com maior força e maior fúria”.

A atividade humana, segundo ele, não cessa de fazer crescer a probabilidade de, não muito distantemente, enfrentarmos o caos. Isso parece bem evidente quando se contrasta a advertência dos cientistas de que, para conseguirmos manter a temperatura média à superfície do planeta 1º C acima dos níveis pré-industriais, teremos de diminuir a produção de combustível fóssil em cerca de 6 por cento ao ano até 2030 com o projetado aumento de 2 por cento ao ano.

Mantendo-se inalterado esse estado de coisas, antevêem-se décadas de grandes conturbações sociais, migrações territoriais de massas humanas e conflitos políticos e económicos. Trata-se de um “ataque ao nosso planeta” que coarta os esforços para eliminar a pobreza, coloca em risco a segurança alimentar de populações e, acima de tudo, rouba o futuro de gerações vindouras.
“A natureza precisa de um resgate”, afirma António Guterres. E para o conseguir empenhou-se na criação no próximo ano de uma coligação global capaz de envolver todos os países, cidades, instituições financeiras e empresas na adoção de planos efetivos e eficazes para concertadamente atingirem o objetivo de um valor líquido nulo – equivaler a quantidade libertada para a atmosfera à quantidade que dela se remove – em emissões de gases com efeito de estufa em 2050.

Pretende especificamente, entre outras coisas, que as várias nações do mundo integrem essa meta da neutralidade carbónica em todas as políticas e decisões económicas e fiscais, deixem gradualmente de atribuir subsídios aos combustíveis fósseis e os transfiram para as energias renováveis, alterem a composição da carga tributária dos contribuintes, desonerando os rendimentos e o trabalho e, em contrapartida, onerando as emissões de carbono e os poluidores, auxiliem todos os que enfrentem os terríveis impactos das mudanças climáticas.
Um discurso, pois, em que António Guterres apela à biofilia, ao contacto saudável com a natureza e não apenas ao respeito por ela, à equidade e justiça para seres humanos e natureza, à solidariedade e não so- mente à cooperação internacional, à resiliência mais que à sustentabilidade, ao conhecimento científico na tomada de decisões. Um discurso que enuncia implicitamente os princípios de uma ética planetária. Um discurso que, pela urgência da sua mensagem, tem de ser escutado.

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