Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Professor Lúcio Craveiro, um empreendedor que amava a juventude

O espantalho

Escreve quem sabe

2014-11-30 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

O colóquio de homenagem ao Professor Lúcio Craveiro da Silva, pela passagem do 100º aniversário do seu nascimento, foi um acontecimento marcante, pela densidade da sua obra, pela notoriedade da sua missão, e por ter sido o primeiro Reitor eleito em Portugal, condição que exigiu quando foi, em boa hora, convidado a exercer esta função, na Universidade do Minho de 1981 a 1984.
Uma excelente iniciativa tomada em mãos pelo Conselho Cultural, pelo Departamento de Filosofia do Instituto de letras da Universidade do Minho e pela Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Cumprindo plenamente o percurso de missão deste vulto da cultura, Ensino Universitário e da Igreja, com a humildade de quem nunca deixou de “ousar ser, bem ou mal, um aprendiz de universitário”.
Colóquio que juntou um conjunto de intelectuais e académicos de renome, que reflectiram sobre o seu ideal de Cultura e de Universidade, “como casa onde viemos e respiramos … e um espaço de serviço e vocação”. Sobre a sua personalidade de “liderança docemente forte”, de gestor universitário, discreto, paciente e solidário. Sobre a sua marca de extraordinária abertura ao exterior, através da sua ação no domínio da internacionalização. Ação sustentada pela aposta no ensino das línguas, das relações internacionais. Preconizando a mobilidade académica nacional e internacional, à imagem que marcou a sua vida académica.
“Arquitecto e diplomata de consensos e construção de pontes”, dotado de uma notável visão estratégica, desenvolveu uma forte magistratura de influência, fazendo da Universidade e da cidade de Braga uma esperança num futuro, que está a ser cumprido, pela ação e testemunho do atual, e ex-reitores patenteado nas suas comunicações.
Um legado que assumiram e condensaram na sua forte cultura de qualidade, na ética de responsabilidade, nas suas inabaláveis convicções e apostas na defesa dos ideais reformistas da educação, nos seus conselhos avisados e na defesa intransigente dos interesses da universidade, sempre com os olhos postos nos estudantes e na juventude, que amava profundamente.
O ideal de Universidade que preconizou, não se diferenciava da sua dimensão mais forte, de “Homem de pensamento”. Uma dimensão, inabalavelmente, sustentada na sua vasta obra literária e filosófica, de que destaco a “Idade do social”, onde reflete com a sabedoria que caracteriza toda a sua vida, novas formas de organização de trabalho, não se compadecem com a rigidez comportamental e automatismos tayloristas, que ainda caracterizam os meandros das relações laborais, contrapondo a sua forte convicção na defesa da dignidade humana, porque na sua perspectiva o “trabalho é o centro da vida social… e a obra-prima da sociedade”.
O professor Lúcio foi um verdadeiro empreendedor. Um “Mestre” que “andou à frente do seu tempo”, tal como a generalidade dos oradores defenderam, em torno das diversas dimensões da sua “missão” e da sua vida. Aderindo à vaga reformista do País, no Instituto de Estudos Económicos e Sociais em Évora. Preconizou a descentralização e diversificação do ensino superior na Faculdade de Filosofia de Braga, da Universidade Católica Portuguesa e, mais tarde, no seu papel incontornável, no processo de criação da Universidade do Minho, onde durante 10 anos exerceu cargos de governo, desde a comissão instaladora.
Passou por todas estas instituições, fazendo da sua sabedoria uma verdadeira “arte de viver”, tal como Cícero. Viveu intensamente o seu tempo, transmitindo aos seus alunos e aos seus colaboradores, que a vida deve ser encarada com equilíbrio afirmando constantemente que “quem não sabe descansar, não sabe trabalhar”, principalmente, quando se referia à sociedade competitiva, ao direito e à dignificação do trabalho das novas gerações.
A disponibilidade permanente para a mudança, que sempre defendeu, foi um desafio assumiu em relação á formação contínua e à valorização da participação activa dos estudantes na vida da academia, através das mais diversas manifestações de associativismo estudantil. Uma dinâmica que acompanhava com regularidade e dedicação, manifestaram uma faceta, porventura, pouco abordada do seu magistério. Defendendo que o ensino superior deveria apostar cada vez mais, num processo de a responsabilidade repartida entre os jovens e a universidade, ao longo do complexo processo de desenvolvimento de talentos profissionais do futuro e da sua empregabilidade.
Preconizava, nesta perspetiva, que o sistema educativo tem um papel essencial na transmissão de conhecimentos, qualificações e aptidões aos profissionais, em ordem à aquisição de ferramentas para responder às novas exigências do mercado de trabalho, assegurando as condições para desenvolvimento de uma verdadeira “cultura de iniciativa”. Despertando boas práticas, potenciadoras da criatividade, em detrimento de um mero processo de reprodução passiva de informações, com o propósito de remover os obstáculos que a construção do futuro profissional suporta, tal como foi defendido pelo economista Joseph Schumpeter em 1945, “como sendo uma peça central à sua teoria da destruição criativa”. Sendo, desta forma que colocava a consolidação da “atitude empreendedora”, sustentando-a nesta simbiose, da capacidade de iniciativa com a criatividade dos estudantes, concretizada com base na aproximação efetiva da universidade com o mundo do trabalho, defendendo o empreendedorismo como principal fator promotor do desenvolvimento económico e social de um país.
Tal como foi afirmado, por todos os oradores, que comprovo pela cumplicidade que tive a honra de merecer do Professor Lúcio, era um empreendedor de causas e de projetos, que me ensinou a apostar na Juventude, na sua generosidade e na sua energia, a quem devemos ajudar a identificar e agarrar oportunidades de construção do seu presente e do seu futuro.

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