Correio do Minho

Braga, terça-feira

Produtividade e improviso

O conceito de Natal

Ideias

2016-09-16 às 06h00

Margarida Proença

As questões da competitividade e da produtividade estão sempre na ordem do dia. O último ranking de competitividade do International Institute for Management Development registou uma descida de Portugal no ranking. O país aparece em 38.º lugar, tendo perdido competitividade face ao ano anterior. Vem depois, como se esperava, é claro, de países como a Suíça, Singapura, os Estados Unidos, a Alemanha ou a Holanda - os cinco ganhadores - mas também da Nova Zelândia, Malásia, Islândia, Estónia, Lituânia, Espanha, Chile ou a Indonésia.

O estudo define competitividade como o conjunto de instituições, políticas e fatores que determinam o nível de produtividade de uma economia, e portanto no fundo a sua riqueza. Portugal perde no ranking fundamentalmente por causa da perceção sobre os riscos macroeconómicos: o défice e a dívida pública, os problemas do sistema bancário, enfim as razões e as consequências da crise financeira global do final da década passada, no contexto atual daquilo que Xavier Sala-i-Martin chama o “novo normal”: crescimento mais lento.

Quando se discutem as questões da competitividade, os argumentos passam pelas melhorias que se sentiram nas últimas décadas no que respeita à educação e às infraestruturas, saúde e maturidade te-cnológica, para depois se centrar na necessidade absoluta de introduzir maior flexibilidade no mercado de trabalho, mantendo salários contidos, de preferência baixos, e tornando mais fáceis os despedimentos. Por vezes, parece que garantindo tal, os problemas das empresa se resolvem, tipo varinha mágica...

A questão da produtividade - a relação entre aquilo que é produzido e os recursos utilizados para tal - é outro dos paradoxos. A melhoria das qualificações e a te-cnologia não foram suficientes para permitir que a produtividade por pessoa empregada fosse subindo para níveis comparáveis à média europeia. Embora os trabalhadores portugueses trabalhem mais tempo por semana, a produtividade por trabalhador continua a situar-se bem abaixo da mediana União Europeia, e o que é pior, parece apresentar alguma rigidez.

As explicações adiantadas têm sido variadas, com argumentos bem conhecidos ao nível da cultura, da história, da relativa ausência de qualificações profissionais adequadas, a uma percentagem ainda relativamente elevada de trabalhadores com baixas qualificações. O envelhecimento da população torna a situação mais preocupante.

Tudo isto é verdade. Mas ainda assim, o mesmo trabalhador colocado noutro contexto cultural e organizacional, apresenta resultados diferentes, independentemente do nível educacional, do estado de saúde, ou do setor de atividade económica. Terá, portanto, de haver outras razões, para as quais normalmente a comunicação social, os políticos, mesmo os investigadores não têm dedicado atenção suficiente.

O mito de que o setor público é ineficiente face à eficiência tida por válida do setor privado tem prevalecido de forma quase absoluta. A aceitabilidade, sem discussão, desta perceção, é por si mesma uma das razões da rigidez nos níveis de produtividade.

Em muitas empresas continua ainda a ser prevalecente a ideia que o planeamento cuidadoso e o controlo dos processos não são importantes para a produtividade. Esta perceção existe tanto a nível operacional, quanto a nível estratégico. Não se eliminam operações redundantes, não se verificam fluxos de trabalho, confia-se acima de tudo no improviso em lugar do cumprimento de prazos, da verificação da qualidade, do escalonamento rigoroso de equipas, da auditoria e do controlo.

Não tem a ver com o trabalhador em si, nem com salários mais ou menos altos, ou com a maior ou menor flexibilidade dos contratos de trabalho. Tem a ver com uma cultura empresarial e organizacional que prevalece, que justifica o “desenrascanço” como estratégia organizacional.
Esta semana tive oportunidade de confirmar esta tese, que aliás tenho já há muito. Comprei um produto a determinada empresa, com a indicação expressa do seu fornecimento na data x, o que envolvia transporte e montagem.

Pagamento integralmente feito, entrega cumprida no que respeita ao material, o incumprimento da montagem tornava impossível o resultado pretendido e contratualizado. O levantamento do problema revelou uma completa ausência de controlo interno, o incumprimento de prazos, o recurso a soluções de cima do joelho e duplicação de custos - a par da total insatisfação do cliente e da perda reputacional. Neste contexto, é fundamental que os clientes se habituem a reclamar, exerçam os seus direitos e exijam o que lhes é devido.

É fundamental que se discuta e se façam exigência no sentido de melhorias na prestação dos serviços públicos - mas de certa forma, a exigência colocada pelos clientes na sua relação com as empresas é ainda mais importante. Organizações, empresas mais eficientes são mais produtivas e geram mais riqueza.

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