Correio do Minho

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Amigos não são amiguinhos

Ideias

2016-01-07 às 06h00

José Manuel Cruz

Em Novembro a OCDE brindou-nos com um relatório pelo qual ficávamos a saber que o ensino pesava no orçamento das famílias portuguesas na ordem dos 35%, para uma média de 14% na União Europeia. Resumindo, se nos indicadores de rendimento rasamos o chão, já no que temos de fazer com o pouco dinheiro disponível, aí não há malabarista que nos passe a perna.

Como é na Alemanha no seu todo não sei, mas num lănder do sul - Baden-Vurtemberg - o financiamento do ensino superior é inteiramente público, isto é, zero de propinas, e os custos acessórios também roçam o risível, por comparação com o que se passa entre nós. Ora, numa Europa tão marcada por germânico imperialismo - ditames que Portugal tão piamente assimilou como bom aluno - rompe-se-me a alma por termos falhado a lição do ensino superior, sendo de crer que o Executivo estivesse todo ele em praxe ou em jubiloso período de queimas. Comparado connosco, em Baden-Vurtemberg é à borla, com 11 milhões de habitantes e 70 estabelecimentos de ensino superior. Talvez se diga: pois é, mas a Alemanha é um país rico. Para o que resposta pronta eu tenho: fez-se rico!

Lá para os lados da Alemanha o ensino superior não arde na carteira dos pais nem nos bolsos dos filhos, empurrados para empréstimos bondosos em nome de auspiciosos futuros. Campeões dos empréstimos-educação, encontram-se os EUA com um grande sarilho entre mãos, ascendendo a mil milhares de milhões os empréstimos em dívida, num país em que ¾ dos alunos recorrem à banca para suportar a formação universitária. O ano passado houve manifestações e tomadas de posição, vez por outra chegou-se a falar em anular ou re-escalonar dívidas. Michael Bloomberg, ex-mayor de Nova Iorque, deu-se a aconselhar os jovens a que evitassem as universidades e se fizessem à vida como picheleiros. O senhor tem tanto de piadético como de ridículo.

Sobre nós pesa grande contrariedade. Propaga-se que não temos fundos para criarmos emprego, para pormos a educação e a formação em velocidade de cruzeiro. Na mesma linha, deveria eu dizer qualquer coisa sobre a saúde, campo em que - temendo ser o único a pensá-lo - não creio que seja importante que se apliquem rios de dinheiro, pois com mais ou menos saúde lá vamos andando e a Deus louvando, e quando se morre, certo é que de Portugal se vai directo para o Céu, que para Purgatório bem vale o que de cá se leva.

A falta de nota não é de agora. Dizem, os versados, que o cofre roto tem acompanhado Portugal desde o acto da fundação, e se por breves períodos a abundância nos pareceu bater à porta, quem cortava e riscava ter-se-á decidido por desperdícios e obra de fachada, findo o que retomamos vida de velhas carestias. Estávamos habituados, e mau era que se perdessem os usos dos avós. Hoje, querem lá os contemporâneos saber do Afonso Henriques, do João I ou do Carlos. Já nem o Salazar é alma que possa ser chamada a pleito. A menos que se insista que 40 anos não são o bastante para reformar um País, de alto a baixo, do direito e o do avesso!

Ora que não há guita, é o que se difunde de Lisboa. Tão entranhada está a resposta, que melhor estranharíamos que continuem pobres cabeças a sonhar com bons serviços públicos. Assumo que não sei quanto possam custar exactamente escolas de bons cursos, habilitações que multipliquem por dois, por três ou mais, os rendimentos dos filhos por comparação com os dos pais, e na mesma proporção a tributação dos novos por comparação com a dos velhos. Não sei quanto é que custam bons professores, mas dizem-nos que não há dinheiro. Mas eis se não quando do céu caem biliões para os bancos: milagre!

Milagre? Parece que o dinheiro sempre dá sinal de vida, não é? O problema são as prioridades. Não, não vou cair na esparrela do “ai se eu mandasse” porque sei que jamais atingirei posição decisória. Não me remeto, por outra, a crítica fácil, como quem tem sempre razão, porque não erra, porque nada é chamado a fazer, ou aceita fazer.

Saídos do betão e do asfalto cavaquista, propagava Guterres a sua paixão pela Educação. Uma década depois era o coração de Sócrates que palpitava por uma caiadela nas escolas, e até da Finlândia se importavam ideias, fosse isso lá preciso. Crato, com estágio de guerra em Lamego, proclamou que implodiria a 5 de Outubro, assim marcando o advento de nova era. E em que pé estamos nós? Já não é só o pagar mais ou menos, nem sequer se dá o caso de se negar que haja em Portugal uns quantos bons cursos ou boas escolas, o que está em causa, mesmo, é se dispomos ou não de um modelo educativo abrangente e qualificante.

Se temos que as pessoas devam ser competentes e inovadoras, capazes de acrescentar valor em cada gesto das suas vidas, pois tal não se prestará por outra via que pela da EDUCAÇÃO. Cultos e hábeis, em conjunto, ambicionaremos mais, exigiremos mais de nós próprios. A EDUCAÇÃO tem se ser para todos, e gratuita, e acessível, pois não há ministro que possa dar-se ao luxo de afogar - antes mesmo de nascerem - os projectos em vias de eclodir em casa de paredes nuas.

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