Correio do Minho

Braga, sábado

Previsões

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2016-05-06 às 06h00

Margarida Proença

Portugal é uma pequena economia aberta. Significa isto que se trata de um país que participa no comércio internacional e logo troca bens e serviços com outros países , mas que é pequeno demais no sentido de que as suas políticas não alteram os preços mundiais, nem tão pouco os níveis de rendimento ou as taxas de juro. É assim mais ou menos - os outros definem os preços, e nós aceitamos. E não se trata apenas dos preços de produtos alimentares, como recentemente vimos para o caso da carne de porco; em pequenas economias abertas, como a nossa, as famílias e as empresas recorrem ao crédito a taxas de juro que são determinadas nos mercados internacionais; no caso de Portugal ainda acresce que o valor da moeda, o euro, é determinado por uma autoridade externa e independente, que é o Banco Central Europeu, e por outro lado não petróleo, ou gás, ou matérias-primas como o cobre ou o café, entre tantas outras portanto o efeito das medidas de política económica definidas internamente torna-se ainda mais complicado.
Por isso mesmo, é preciso ter atenção ao que se passa lá por fora, e em particular na União Europeia. De acordo com os últimos dados, a economia europeia continua a parecer muito anémica, marcada por um crescimento lento, apesar de estar a beneficiar de preços baixos para o petróleo. As medidas tomadas pelo Banco Central Europeu melhoraram o acesso ao crédito, mas ao fim e ao cabo o investimento ainda não disparou, os níveis de dívida pública e privada continuam a demasiadamente elevados, o desemprego ainda se mantém pelos 10,3% e a estimativa para a inflação em 2016 é apenas de 0,2%. E fora da União Europeia, as coisas não andam muito melhor; os mercados emergentes, países como o Brasil ou a Rússia, provavelmente crescerão apenas marginalmente. Angola já sabemos, e até a China tem vindo a importar menos, aliás como os Estados Unidos. E depois, há ainda a incerteza política na União Europeia por causa da eventual saída dos ingleses (Brexit), da crise dos refugiados , do terrorismo, de quadros eleitorais associados a grandes dificuldades como no caso da Espanha por exemplo. E quanto menor for o crescimento económico, mais perigosos poderão ser os efeitos da incerteza política.
Em 2015, o crescimento económico na União Europeia baseou-se fundamentalmente na procura doméstica, suportada por alguma melhoria no mercado de trabalho e portanto níveis de rendimento um pouco mais elevados, e uma taxa de inflação baixa. Claro que a poupança não terá aumentado de forma significativa, tal como é referido no texto do relatório da Comissão Europeia e que diz respeito às previsões que se podem fazer agora, em maio, sobre o crescimento económico para 2016.
Neste quadro não parece fazer muito sentido, em Portugal, uma abordagem de política que não procure incentivar o consumo, bem como o investimento. Ainda que com planos de contingência adequados, é preciso crescer, e para isso também é fundamental que haja otimismo nos agentes económicos.
Dani Rodrick é um economista muito conhecido , nascido na Turquia , professor em Harvard, e que tem uma obra muito significativa em questões sobre globalização, crescimento e desenvolvimento económico e economia política. Tem trabalhos muito interessantes, ainda que marcados muitas vezes por alguma polémica. Uma das teses que defende é que há uma espécie de “teorema de impossibilidade” na economia global. Para ele, democracia, soberania nacional e integração económica á escala mundial são mutuamente incompatíveis ; pode- combinar dois, mas não os três integralmente. A situação em que cada país, por si só, decidia as políticas que maximizassem os seus interesses individuais, tornou-se cada vez mais dificultada num mundo onde os custos de transação e os custos financeiros vão desaparecendo. E num contexto global, financeiros e grandes investidores, poderão impor os seus objetivos individuais , independentemente dos objetivos democraticamente traduzidos em resultados eleitorais me cada um dos países; veja-se a importância dos Panamá Papers, e outros, ou das rezões estritamente financeiras que levaram ao aparecimento da crise financeira de que ainda estamos a sofer as consequências.
Em qualquer caso, é mesmo difícil fazer previsões…

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