Correio do Minho

Braga,

Prevenir o insucesso e abandono escolar

Verdade ou consequência

Ideias

2012-03-27 às 06h00

António Dias Pereira

As escolas portuguesas continuam a debater-se com elevadíssimas ta-xas de abandono e insucesso escolar. Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), publicado em fevereiro deste ano, confirma o lugar de Portugal entre os países com piores níveis de retenção: 35% (perto de um em cada três) dos jovens portugueses de 15 anos já chumbou pelo menos uma vez. A média da OCDE é de 13%. Em 40 países analisados, Portugal é o sexto com maior percentagem de retenção de alunos.

Recentemente, o Conselho Nacional de Educação (CNE), um órgão consultivo da Assembleia da República, voltou a sublinhar que o “recurso frequente à retenção em detrimento de outras medidas mais eficazes” é um fenómeno “gerador de desmotivação e abandono escolar precoce”. Segundo a CNE, a persistência desta situação “apela a uma mudança profunda na atitude dos professores e das escolas face ao insucesso dos seus alunos”.

Em face desta preocupante realidade, como podem as escolas e os professores gerar as condições para proporcionar a cada um e a todos os jovens portugueses percursos de educação e formação de qualidade numa lógica de cumprimento, com sucesso, de uma escolaridade obrigatória de 12 anos, já a partir de Setembro? Que medidas são adotadas pelas escolas e pelos professores? O que falta fazer? Que propostas e soluções?

Na maioria das escolas portuguesas dominam dois modelos de mediação e de trabalho: a turma e os pequenos grupos das aulas de recuperação e apoio. Porém, estas duas mecânicas dominantes de trabalho não são suficientes, uma vez que o insucesso escolar atual vai determinando a formação de grupos de alunos com risco elevado de exclusão escolar e social, que tendem a prevalecer e a acentuar-se com o tempo. Nestes grupos de alunos de risco elevado temos de considerar dois tipos: os que “não querem” e os que “querem mas não conseguem”. Para cada um deles, a nosso ver, torna-se necessário complementar o trabalho, que já se tem vindo a realizar nas escolas, com outros modelos de maior proximidade e alcance.

Para os alunos que “não querem” - que surgem cada vez em maior número e que a escolaridade obrigatória de 12 anos fará certamente aumentar - impõe-se às escolas, sobretudo do 2.º e 3.º ciclos, a adoção de uma mecânica de mediação-capacitação, visando dotar estes alunos de métodos de capacitação indutores de comportamentos típicos do ser aluno (disciplina pessoal, esforço, empenho, organização do trabalho, autonomia e sentido de responsabilidade), que potenciem o seu sucesso escolar e social.

Ora, a implementação de uma mecânica de mediação-capacitação implicará a formação de equi-pas mistas - docentes da turma e técnicos especializados - que terão a dupla missão de sinalizar, em tempo útil, os jovens com fatores de risco elevado em termos de sucesso escolar e ainda de conceber e implementar planos individuais de acompanhamento em proximidade e continuidade.

Neste modelo, os Gabinetes de Apoio ao Aluno e os Serviços de Psicologia e Orientação deverão evoluir para uma fórmula muito mais potente e mais presente no tecido escolar. Se isto não se verificar, a obrigatoriedade dos 12 anos de escolaridade poderá correr o risco de não ter efeitos visíveis em prazos inferiores aos de uma geração. Refira-se, a título de exemplo, o trabalho encorajador e muito meritório que o Gabinete de Intervenção Psicoeducativa da Escola Profissional de Braga tem vindo a realizar junto de alguns alunos com maior risco de insucesso escolar, visando o desenvolvimento de competências de estudo e métodos de trabalho.

Por sua vez, para os alunos que “querem mas não conseguem” - e cujos pais não têm condições para pagar explicações privadas - é necessário incrementar um modelo de recuperação de tipo “explicação individual”, uma vez que a fórmula das aulas de recuperação e de apoio não é suficiente - até porque, em muitos casos, os atrasos e as debilidades são tais que os alunos se inibem de o reconhecer em frente aos seus pares e até mesmo perante o professor da disciplina. Não sendo a mecânica de «aula individual» natural na cultura de escola atual, tratar-se-ia aqui de empreender, desde logo, uma significativa mudança de atitude e de processos nas escolas.

Registe-se que estas mecânicas já vêm sendo ensaiadas em algumas escolas deste país com resultados muito animadores. Desta-que-se, neste particular, as expe- riências que vêm sendo desenvolvidas por muitas escolas portuguesas, no âmbito de dois projetos inovadores: o ‘Projeto Fénix’, promovido pela DGIDC e o Projeto ‘Rede de mediadores para o sucesso escolar’, promovido pela Associação EPIS (Empresários pela Inclusão Social). Enquanto que o Projeto Fénix se caracteriza pela adoção de um modelo organizacional de escola que permite dar um apoio mais personalizado aos alunos que evidenciam dificuldades de aprendizagem nas diferentes disciplinas, privilegiando-se, naturalmente, as discipli-nas consideradas basilares, o Projeto promovido pela Associação EPIS atua diretamente junto dos alunos do 3.º ciclo de escolaridade considerados “casos de risco”, ao mesmo tempo que procura aumentar a qualidade do acompanhamento dos pais no caminho do sucesso escolar dos seus filhos.

A obrigatoriedade dos 12 anos de escolaridade, a partir do próximo ano letivo, impõe, pois, a cada escola o grande desafio de ajustar a sua matriz de conteúdos e processos de molde a incorporar mecânicas mais adequadas ao perfil individualizado de cada aluno em termos de risco de insucesso escolar - seja modelos de mediação-capacitação, seja modelos de recuperação individual. Neste capítulo, a Escola Profissional de Braga tem vindo a inscrever, no seu projeto educativo e na organização e gestão da sua formação, processos e rotinas, inovadores primeiro e consolidados depois, onde vem traçando, passo a passo, o caminho certo para o sucesso educativo e formativo dos seus jovens.

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