Correio do Minho

Braga, terça-feira

Preto no Branco

Câmara tira aos bracarenses mais de 3 milhões de euros de IMI

Ideias

2014-09-15 às 06h00

Carlos Pires

A cidade de Braga viveu, no sábado, mais uma “Noite Branca” (ou “Noite em Branco” - a nova nomenclatura atribuída ao evento, este ano, pela entidade organizadora), uma festa destinada a todas as pessoas, residentes e visitantes. Constituiu pois um motivo de diversão para os que nela participaram, vestidos (ou não) de branco, cor que de igual forma inspirou aspetos de decoração das ruas, bem como algumas manifestações artísticas e culturais.

Posto isto, e deixando desde já claro que sou completamente “a favor” de todas as iniciativas que visem criar momentos de recreio e entretenimento para as pessoas, que lhes permitam esquecer os problemas do dia-a-dia, estou todavia longe de concordar que a “Noite Branca” é “o momento de afirmação da marca Braga, de afirmação da cultura da nossa cidade”, conforme foi declarado pelo edil de Braga.

Para que o(a) caro(a) leitor(a) possa perceber melhor as minhas razões, temos que recuar a Setembro de 2012, altura em que a “Noite Branca” surgiu, inserida no mega evento desse ano - Capital Europeia da Juventude. Nesse exato contexto, não me causou estranheza que se apelidasse o acontecimento de “Noite Branca”, com todo o “merchandising” associado à cor em causa, inspirado certamente nas festas temáticas e de caráter puramente mundano promovidas, por todo o país e por todo o mundo, em discotecas e bares, em cujo lote se inserem ainda, as lendárias “Festa da Espuma” e a “Noite Flower Power” (inspirada na música e costumes dos anos 60), ou as mais recentes e modernas criações de “Sunset” e “Chill Out”.

Converter pois Braga, em 2012, numa pólis-discoteca, destinada à diversão da juventude (e de todos os mais graúdos que se associassem), repito, não me pareceu disparate algum. Como capital europeia dos mais jovens, e a par de outras iniciativas de caráter cultural, Braga decidira recriar uma festa cuja denominação (“Festa Branca”) era facilmente associada ao pretendido: entretenimento! Poderia ter sido, desculpem-me o analogismo, e ironia à parte, “Braga inundada em Espuma”, ou “Braga ao ritmo frenético dos anos 60”… Mas não! Decidiu-se, presumo também pela facilidade do uso da cor numa multiplicidade de outros fins (indumentárias, decoração, etc), pela recriação de uma “Noite Branca”. Um “plágio” aprovado, porquanto radicava no recurso a um “ícone” facilmente associado por todos à diversão pura, à proclamada “Juventude”, de que Braga foi distinta Capital Europeia naquele ano.

Já no ano seguinte, 2013, pareceu-me escusado replicar o acontecimento nos mesmos termos, como se de “legado” se tratasse, conforme vi amplamente anunciado. Já não tinha quanto a mim o mesmo sentido. Além de que o conceito de “Noite Branca”, em si mesmo, ao contrário de outros festejos - o “São João”, a “Braga Romana” -, estava despojado de qualquer ligação cultural ou histórica, que não e somente o facto de ter constituído um alegado sucesso no ano anterior. Por outro lado, outros locais (alguns muito próximos de Braga - v.g. Guimarães) organizavam “Noites Brancas” ao longo do período do Verão. Faria pois muito mais sentido para a capital do Minho, do ponto de vista estratégico puro - a criação da tal “marca” -, revestir estes festejos de uma denominação e temática únicas, que pudessem ser vistas como exclusivas e genuínas da nossa cidade (quiçá um simples “Braga em Festa”?), potencialmente mais atrativas, sobretudo para públicos vindos de fora.

São pois estas as razões que me levam a concluir que não estamos perante um evento que alguma vez possa ser conotado como “marca Braga”. É escusado. As pessoas divertiram-se? Claro que sim, arrisco afirmar. Mas trata-se de uma festa que, lamentavelmente, não obstante os recursos que se despendem, nunca servirá, tal como deveria preferencialmente servir, como afirmação da nossa cidade, muito menos do ponto de vista “da cultura”.

Resta-me acrescentar algo que constatei ao longo do dia de sábado e que, quanto a mim, corresponde à materialização das considerações anteriores: havia menos pessoas, sobretudo forasteiros e visitantes, do que nos anos anteriores. Ainda, os eventos de natureza cultural foram muito pouco participados. A maior afluência de pessoas deu-se à noite, fruto de um arrebatador cartaz musical (a fadista Ana Moura, Abrunhosa e os Azeitona), tal como de resto já tinha acontecido em anos anteriores (Mariza, em 2013; The Gift e Mafalda Arnaulth, em 2012).

Mas uma noite recheada de bons concertos musicais, ao jeito de um festival de Verão, é de todo suficiente para construir uma marca cultural na qual Braga se possa afirmar? Não me parece. E não acredito em discursos que defendam o contrário, e que só posso compreender na lógica da “política do pão e circo” - expressão-sátira que retrata o modo como, no tempo dos romanos, os seus líderes lidavam com a população, para conquistar o seu apoio.

A responsabilidade é da equipa que organizou o evento este ano? Não! A culpa radica, quanto a mim, única e exclusivamente, na aposta num produto e fórmula já perfeitamente esgotados. O futuro o dirá, mas arrisco a afirmar que o livro da História reservará uma folha “em branco” para as noites em que Braga insistiu em vestir-se de igual cor.

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