Correio do Minho

Braga,

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Presidenciais em Dia de Reis - natureza humana e paradoxos

Mentira social e a mitomania

Ideias

2011-01-06 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

No Leviatã, obra clássica das ideias políticas e sociais de referência obrigatória no espaldar teórico de ciências como a Ciência Política ou o Direito, Thomas Hobbes afirma a dada altura do capítulo décimo terceiro, inserido na primeira parte dedicada à análise do homem e da sua natureza: “(…) Pois a natureza dos homens é tal que, embora sejam capazes de reconhecer em muitos outros maior inteligência, maior eloquência ou maior saber, dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios como eles próprios; porque vêem a sua própria sabedoria bem de perto, e a dos outros homens à distância.”

Olhando os debates entre os candidatos à Presidência da República e a campanha entretanto iniciada, que nos conduzirão às eleições do dia 23 de Janeiro, e pese embora não comungar da avaliação negativa que Hobbes faz da natureza humana, não posso todavia deixar de recordar as suas palavras e de lhes reconhecer uma incómoda perenidade ou não traduzissem elas a lúcida análise da vaidade humana.

De facto, o que temos visto é cada candidato reclamar para si o slogan do mais honesto, do mais justo e tolerante, do mais solidário, do mais cidadão. Tudo isto faz parte do jogo político e aliás é isso mesmo que explica porque, apesar de tantas acusações, nenhum dos candidatos verdadeiramente se indigna, ou quando o faz, fá-lo enquanto estratégia do próprio jogo. Ou seja, se tudo o que vão dizendo uns contra os outros fosse para ser realmente levado a sério, seria motivo bastante para abrir processos na justiça por difamação e atentado ao bom-nome. Como digo porém, tudo faz parte do jogo político e assim se entende que a campanha decorra ao ritmo de constantes tabefes.

É no entanto preocupante que os debates, que em democracia deveriam ser sempre oportunidades de esclarecimento da sociedade, acabem por se resumir a questões menores que pouco acrescentam ao (des)conhecimento da sociedade sobre o papel do PR no processo de decisão política. Ao papel do PR voltaremos em próxima oportunidade.

Entretanto, dos candidatos a votos, o destaque vai naturalmente para Manuel Alegre e Cavaco Silva. Alegre parece ter perdido o fulgor da novidade que foi há seis anos o aparecimento do movimento de cidadania em torno da sua campanha. Por outro lado, talvez capitalize alguns dividendos se mantiver a serenidade perante os constantes ataques de Cavaco Silva, que de tanto reclamar para si todas as virtudes cívicas (honestidade, transparência, experiência e sensatez) acaba por correr maiores riscos. É que quando se reclama alvura absoluta, qualquer nódoa por pequena que seja nunca passará despercebida, seja pelo seu contraste com o branco da virtude que se apregoa, seja pela insistência das forças oponentes em voltar todos s holofotes sobre ela.

Melhor mesmo para Alegre será deixar que a máquina do partido socialista se encarregue de explorar ao máximo os pontos menos fortes de Cavaco, como é claramente o caso BPN e SLN, em vez de assumir publicamente todas as custas do jogo de acusações. Por outro lado, um Alegre assim, parece… triste, desprovido de algum interesse, a que acresce o facto de o seu discurso sofrer dos efeitos de um paradoxo irónico.

A verdade é que o discurso de Alegre é, de um ponto de vista ideológico na acepção mais nobre do termo, um dos mais transparentes, consistentes e sólidos no que se refere a conceitos centrais como Estado Social. No entanto, é também um discurso excessivamente académico para ser dominado pela maioria do eleitorado que pouco saberá sobre ‘princípio da universalidade’ e de como este é afinal a trave que sustenta a justificação da nossa relação vertical de obediência ao Estado. Ou seja, nós respeitamos o Estado porque supostamente ele cumpre com fins essenciais, entre eles o fim de justiça, de conservação e de criação de bem-estar de toda a sociedade … Por outras palavras, quando se fala na ideia de acabar com as responsabilidades sociais do Estado como se fosse uma ideia muito benigna e razoável, alguém se esquece que são essas responsabilidades que em parte justificam porque a sociedade deve obediência ao Estado.

Mas voltando ao discurso de Alegre, o paradoxo está no facto de precisamente o discurso que mais defende o Estado Social ser aquele que menos inteligível é para o eleitorado. Ao mesmo tempo, um discurso como o de Cavaco Silva - que nunca assume explicitamente a sua adesão a várias ideias neo-liberais da concepção de Estado e da relação deste com o mercado e a sociedade, - acaba por ser emocionalmente mais eficaz (segunda parte do paradoxo), com argumentos em torno do assistencialismo do terceiro sector e do apoio que este lhe mereceu enquanto presidente, como se a isso se resumisse a responsabilidade do Estado em matéria de criação de bem-estar da sociedade.

Já quanto ao papel que pode caber ao Chefe-de-Estado no que toca a determinar/influenciar a gestão e a agenda do processo político em matérias tão sensíveis como a do futuro do Estado Social, isso é assunto que deixo para o próximo artigo, que gostaria de dedicar ao ‘mito da isenção’ na vida política portuguesa.

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