Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Presidenciais e outras coisas mais

Um ciclo que se abre

Ideias

2015-05-03 às 06h00

Artur Coimbra

1. Vai já por aí um frenesim desmesurado, a propósito das próximas eleições presidenciais, que se realizam apenas nos primeiros meses de 2016. Como diria o actual inquilino de Belém, o mais fraco, contestado e detestado Presidente da República desde que há democracia, pelos seus silêncios quando deveria haver palavra, pelas suas gaffes quando deveria estar calado, pela sua indesmentível colagem partidária ao actual governo, ainda vai mediar um tempo que dá para a gestação de uma criança. Pelo menos, nove meses…
Mais importante para os portugueses que pensar, desde já, nas presidenciais, seria que a classe política se ativesse à actividade governativa de Passos Coelho, à sua agenda ideológica de destruição de tudo o que é sector público da economia, do seu programa de empobrecimento dos trabalhadores e dos aposentados, da desvalorização do rendimento do trabalho, em contraponto com o acréscimo de dividendos do capital, da cortina de fumo demagógica em torno das medidas que outros partidos (como o Partido Socialista) se preparam para propor. Se nos recordarmos que esta gente foi eleita com base numa estratégia de mentira, de impostura e de falsidade, prometendo o que não cumpriu, nunca se preocupando em sufragar os “cenários macroeconómicos” de todo o seu embuste, só podemos e devemos questionar a moralidade e a legitimidade para propor o que quer que seja.
Haja decoro e um mínimo de ética na prática política, o que não está a acontecer com o primeiro-ministro que cada dia se enterra mais: o último e lamentável episódio é o da glorificação do vigarista social-democrata Dias Loureiro, alçado a paradigma do empreendedorismo “de sucesso”, esquecendo de recordar, o demagogo, o quanto essa personagem participou no descalabro do BPN, que está a ser pago por todos os portugueses, que apenas querem ganhar o pão de cada dia…
Essas é que são as questões importantes no debate político…
2. Mas há quem avance com outros cenários e propostas, ainda que estejamos a menos de meio ano de eleições bem mais fulcrais para o quotidiano dos portugueses, como são as legislativas, que deverão realizar-se entre Setembro e Outubro.
Todavia, as presidenciais já mexem, sem qualquer dúvida. Lançaram já candidaturas pessoas como Henrique Neto e Paulo de Morais, ambos conhecidos por diferentes razões e enquadrados em estratégias não coincidentes. Certamente candidatos residuais, se levarem até às urnas as suas vontades.
Em 29 de Abril, apresentou a sua candidatura a Belém o professor universitário e ex-reitor da Universidade de Lisboa, Sampaio da Nóvoa, que poderá muito bem vir a transformar-se no candidato do Partido Socialista.
Basta ver a quantidade de personalidades ligadas àquele partido que estiveram no Teatro da Trindade. Desde os ex-presidentes da República Mário Soares e Jorge Sampaio, a ex-ministros, capitães de Abril e muitos outros socialistas, a darem a tónica simbólica de que Sampaio da Nóvoa deverá vir a ter o apoio político do PS, em orfandade forçada, após a nega de putativos candidatos, sobretudo do mais natural e ansiado, António Guterres.
E a verdade é que o discurso de Sampaio da Nóvoa, um outsider da política, encanta quem não se revê no “mesmismo” que têm sido os últimos anos da actividade governativa e presidencial neste país.
O candidato garante isso mesmo: 'Não venho para deixar tudo na mesma'. Fá-lo pela 'obrigação de não ficar em silêncio, não me esconder num tempo tão duro'. 'Se for eleito Presidente da República não serei o espectador impávido perante a degradação da nossa vida pública'.
O ex-reitor promete que a sua intervenção passará por ser 'presente, capaz de ouvir, cuidar, proteger e promover a inclusão'. 'Não me resignarei perante a destruição do Estado Social'. Como candidato, garantiu que 'tudo fará para reforçar a democracia' e 'restaurar a confiança dos portugueses'. 
O candidato promete transportar uma 'Outra visão. Outra ideia de Portugal'. Nas suas palavras, deixar que a crise se eternize, seria 'deitar por terra 41 anos de democracia, um a um dos ideais de Abril'.
Disse que a política não serve para explicar inevitabilidades mas para abrir caminhos. Lembrou não ter filiação partidária nem 'nunca exerceu cargos políticos'. Isso 'não em aumenta, nem me diminui. Mas marca uma diferença'. A questão central, agora, é 'saber se os portugueses querem ou não esta diferença'.  A sua proposta 'não é um sonho nem ilusão, mas uma certeza e uma esperança'.
Sampaio da Nóvoa terminou a apresentação em apoteose. 'Não podemos continuar à espera que nos salvem' e 'peço a todos que se elevem acima da mediocridade e não esmoreçam perante as dificuldades'.
Estas algumas das ideias deixadas por Sampaio da Nóvoa e que seduzem pela frescura que introduzem no espaço político, vindas de quem não faz parte dos aparelhos partidários que têm controlado o poder nas últimas quatro décadas.
O ex-presidente Jorge Sampaio não poupou nos elogios a Nóvoa, referindo, designadamente, “Sampaio da Nóvoa é salutar para a democracia portuguesa, vem da sociedade civil e representa a renovação que é esperada na vida política portuguesa. Tem todas as características de Presidente da República: capacidade de diálogo, de fazer pontes, de unidade e mediação, de incentivar o compromisso e é sobretudo uma pessoa capaz de ter causas. O país precisa de uma pessoa de causas para voltar a ter esperança”.
Pessoalmente, agrada-me esta candidatura e a utopia que transporta. As ideias e a personalidade que as encarna.
Obviamente, terá um longo caminho a percorrer, para se tornar mais familiar dos portugueses e não apenas das elites, já que não dispõe de um canal televisivo para as homilias dominicais…

3. Mais um 1º de Maio que passou, há dois dias. Para nos fazer lembrar que a Festa do Trabalhador é hoje um paradigma completamente diferente, não passando de um feriado pouco menos que normal.
Milhares de trabalhadores, pelo país além, viram redobradas as suas tarefas, sobretudo nos super e hipermercados. Milhões de portugueses atropelaram-se para garantir as melhores promoções, marimbando-se para as manifestações contra o empobrecimento do país, a má distribuição da riqueza e as crescentes desigualdades, a luta por melhores condições de vida e salários mais dignos.
As manifestações são hoje corporizadas por reformados, crianças e desempregados, ou por descontentes contra a situação política e o governo do país.
Perdeu-se, por estes anos, a mitologia da festa do 1º de Maio!

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