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Pródromo da visão holística da Terra: a “Naturgemälde” de Humboldt

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Pródromo da visão holística da Terra: a “Naturgemälde” de Humboldt

Escreve quem sabe

2021-05-01 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Aqueles que consideram que o Antropoceno é um conceito com uma história curtíssima – e.g., o filósofo Clive Hamilton e o historiador das ideias Jacques Grinevald –, não remontando além de 2000, baseiam essa sua reivindicação sobretudo no seguinte argumento epistemológico: tal noção emergiu ligada ao recente paradigma da Ciência do Sistema Terrestre e dele retira boa parte da sua inteligibilidade.
Com efeito, esse paradigma científico principiou a ser desenvolvido pela NASA na segunda metade da década de 1980, amadureceu nos anos 1990 com o Programa Internacional da Geosfera-Biosfera e tornou-se amplamente aceite pela comunidade das Geociências desde o início do atual século. O seu núcleo é constituído por um elemento ontológico: a Terra concebida como um Sistema – um todo altamente heterogéneo e dinâmico – e outro metodológico: a compreensão da complexidade da sua estrutura e do seu funcionamento requer uma abordagem multidisciplinar e integradora.

No entanto, esta visão holística do nosso planeta, necessária para o estabelecimento do conceito geocronológico do Antropoceno, tem raízes que nos levam mais proximamente à “hipótese Gaia” enunciada pelo ambientalista britânico James Lovelock em 1972 e mais distantemente à ideia de “Naturgemälde” proposta por Alexander von Humboldt quase dois séculos antes.
Esse termo alemão suscita algumas dificuldades de tradução. A ideia que ele veicula ocorreu ao naturalista germânico, como ele mesmo asseverou, por volta de 1790. Porém, o escrito onde apareceu pela primeira vez terá sido o seu Ensaio sobre a Geografia das Plantas, de 1803 – um relatório das observações de grandes fenómenos geofísicos feitas na viagem que realizou pelos Trópicos, na companhia do botânico francês Aimé Bonpland, entre 1799 e 1803 – logo no início do respetivo subtítulo: “acompanhado de um quadro físico das regiões equinoxiais”.

Cotejando com a versão da obra na sua língua nativa, surgida dois anos mais tarde, percebemos que a expressão francesa “tableau physique” (quadro físico) se apresenta equivalente de “Naturgemälde”. A associação com o Tableau Oeconomique (Quadro Económico) de François Quesnay, obra publicada não muito antes, em 1758, que funda a moderna ciência económica e que intenta, pela primeira vez, produzir uma representação do domínio económico no seu conjunto, é quase irrecusável.

“Naturgemälde” é, pois, como Andrea Wulf, afirmou no ensaio biográfico que dedicou ao autor, A invenção da Natureza (2016), uma “pintura da Natureza” como “um microcosmo numa página”.
É possível que essa ideia tenha ficado finalmente definida na mente de Humboldt, quando em 1801 subiu ao cume do vulcão Chimborazo, no Equador, o ponto mais alto da Terra por referência ao seu centro. A 6263 metros de altura ele terá vislumbrado, então, de modo muito claro a interligação e unidade das coisas vivas, inspiração para o célebre desenho que delineou de um quadro físico (Naturgemälde) em que a monta- nha do Chimborazo aparece ladeada por colunas à direita e à esquerda com informações sobre a temperatura, pressão atmosférica e humidade, para além de animais e plantas existentes a diferentes altitudes. Como afirmou no prefácio do Ensaio “(…) nele [o desenho] abarco todos os fenómenos físicos que observo tanto na superfície do globo como na atmosfera que o envolve”. Hoje fala- ríamos talvez da Troposfera, precisamente aquela fina película cheia de vida, que também gostamos de chamar Natureza, a envolver a Terra, palco onde o drama do Antropoceno se desenrola.

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