Correio do Minho

Braga, terça-feira

Praxes ou selvajaria?

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2014-01-28 às 06h00

Jorge Cruz

O Ministério da Educação e Ciência decidiu finalmente tratar das questões relacionadas com as praxes académicas e, nesse sentido, convocou as associações de estudantes do ensino superior para uma reunião esta semana. A mesma questão, que ganhou actualidade com os recentes acontecimentos da praia do Meco e da Universidade do Minho, vai também ser abordada com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e com o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos.

Creio que o mínimo que se pode dizer desta decisão do gabinete de Nuno Crato é que peca por tardia mas, como diz a sabedoria popular, mais vale tarde do que nunca, principalmente se as anunciadas reuniões servirem para acabar definitivamente com os graves atentados e até crimes que se têm cometido em nome das praxes académicas.

Como questão prévia, quero declarar desde já que não tenho qualquer preconceito contra as praxes mas também não sou um seu adepto incondicional, bem pelo contrário. Sou do tempo em que a praxe era um ritual coimbrão, que envolvia a própria cidade dos doutores, mas que sempre foi rodeada de controvérsia. Aliás, os excessos cometidos levaram a interrupções várias. Curiosamente, não era muito bem vista quer no Porto quer em Lisboa. Uma certa identificação e, às vezes, alinhamento com o regime deu-lhe o carácter político que, naquela altura, terá contribuído ainda mais para o ostracismo a que as praxes foram votadas pelas academias do Porto e de Lisboa.

Claro que houve lugar à luta, uma luta que, para os mais politizados, tinha a ver com a conjuntura política, com o combate ao Estado Novo, mas também com a praxe propriamente dita enquanto instrumento das autoridades, académicas e não só. Foi o tempo das discussões, das desavenças e de algumas bordoadas, por vezes.

De há uns anos a esta parte, e principalmente com a entrada massiva de privados no Ensino Superior, começaram a proliferar universidades, institutos e escolas. Pode-se discutir a qualidade do ensino de alguns desses estabelecimentos e as autênticas trapaças que lá se operam. Mas essas são contas de outro rosário que só indirectamente terão algo a ver com o tema central desta crónica. O assunto de hoje são as praxes e as situações mais ou menos criminosas que em nome delas sucedem em algumas dessas escolas mas também em universidade públicas.

Como escrevia no sábado Vasco Pulido Valente, “numa altura em que pelo Ocidente inteiro se abandonavam as ‘praxes’ pela sua brutalidade e pela sua absoluta falta de sentido no mundo contemporâneo, Portugal adoptou com entusiasmo essa aberração”.

De facto, tornou-se quase normal ver grupos de miúdos, comportando-se como carneiros, a serem publicamente humilhados em nome de uma alegada inserção na vida e no meio académico, num comportamento que tem mais a ver com atitudes fascizantes do que propriamente com qualquer ritual de recepção. E quando algum reitor, como acontece na Universidade do Minho, proíbe praxes no interior do ‘campus’, então é certo que as sevícias são praticadas nos arrabaldes, em plena via pública.

Com a experiência universitária e o conhecimento que se lhe reconhece, Vasco Pulido Valente diz que “tanto as direcções como os professores não abriram a boca e menos puniram os delinquentes que, de resto, não se escondiam e até se gabavam”. Por essa razão, acrescentou no texto publicado no Público, “do Minho ao Algarve nasceu assim uma nova cultura, cada vez mais sádica e tirânica, que variava na proporção inversa da qualidade académica da instituição em que se criara”.

Deve dizer-se, em abono da verdade, que as generalizações se tornam quase sempre injustas. Aliás, o exemplo do reitor António Cunha, da Universidade do Minho, que proibiu praxes no interior dos recintos universitários, demonstra claramente quão errado é generalizar. Também apraz registar, ainda na UM, a posição do presidente da associação de estudantes: a praxe “não pode colidir com os direitos fundamentais das pessoas e a sua liberdade”, diz Carlos Videira defendendo ainda “que haja sempre bom senso e moderação nas praxes”.

Infelizmente, porém, alguns bons exemplos que podem ser apontados aqui e além não impedem que a tal “nova cultura, cada vez mais sádica e tirânica” se estenda muito para além do desejável. É também por essa razão, para evitar situações dramáticas como a perda de vidas humanas, que urge actuar rapidamente num processo que, embora liderado pelo ministério, deve envolver toda a sociedade.

É tempo de terminar de uma vez por todas com as práticas de humilhação dos caloiros perante os veteranos, com as práticas que atentam contra a dignidade humana, enfim com o condenável modelo de actuação hierárquica que mais parece inspirado em ideais nazis do que propriamente no regime democrático em que todos queremos viver. É altura de acabar com as selvajarias, com as passividades e com as cumplicidades. É chegada a hora de terminar com a cultura de total desrespeito pelos direitos humanos, com a cultura imbecil da barbaridade e das atrocidades. Estamos a falar de verdadeiros casos de polícia e, obviamente, a praxe não é isso.

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