Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Praça Sintagma em Atenas, o coração da Europa?

Liderar Gerações Por Portugal

Ideias

2011-06-27 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Por estes dias, a Europa anda debilitada por constantes taquicardias. Pode-se sentir esse pulsar frenético e receoso na Praça Sintagma, em pleno coração de Atenas.

Domingo à tarde, como desde há pelo menos três semanas, o rosto da Praça Sintagma está transfigurado. Os seus improvisados moradores redesenham o quotidiano entre a frugalidade de tendas, mesas e cadeiras de campismo, e a alta tecnologia de portáteis e iPhones com os quais mantêm contacto com o Mundo, e mais importante, mantêm o Mundo em contacto com a sua luta.

Sob o calor viscoso da tarde, twitta-se, actualizam-se blogues e páginas do facebook, lêem-se jornais on-line e vai-se discutindo com os vizinhos de circunstância. Por todo o lado, cartazes e faixas sem grandes floreados gráficos, exibem em letras garrafais pintadas à mão, palavras de ordem para quem os queira e saiba ler. Não é o meu caso. Ainda assim, consigo identificar algumas (bendito substrato helé-nico da língua Portuguesa!) Clepto... ah! Pois, ladrões.

Ladrões, ou ladroagem, ou ladroeira, a ideia principal já a tenho. São essencialmente três os tipos de inimigos que identifico nestes gritos pintados: os políticos gregos; a banca internacional e as agências de rating; a União Europeia, e muito em particular a Alemanha. Em inglês (o que me facilita vida) pode ler-se ‘Juntos nos erguemos; separados caimos’, numa clara alusão ao que os Gregos (e não só) lêem como ausência de solidariedade europeia. Num outro cartaz, lê-se ‘Nazi, Nazi, Merkel e Sarzoky’.

Os soundbites cumprem a sua missão, são fortes e exagerados, mas são sobretudo o espelho de que por estes dias as emoções dos Gregos andam ao rubro. Não é para menos. Na iminência da bancarrota, e com um novo auxílio externo de 17 mil milhões de euros pendendo da aprovação pelo Parlamento de medidas dramáticas, os Gregos sentem-se postos à venda, simplesmente a leilão como os escravos que outrora tiveram e comerciaram, quando eram ainda o centro do Mundo e da Democracia, o nosso berço cultural.

À medida que a tarde cai, as ruas ganham uma vida nova: centenas de homens e mulheres, crianças de colo e idosos, convergem animados para a Sintagma. Parecem ir para um arraial, tal e a genica nas pernas e a alegria que transmitem. Levam apitos e muitas bandeiras da Grécia. Em outras alturas, diria que se encaminhavam para o Estádio do Panatinaikos para assistir a um jogo da selecção. De repente, também eu sou parte da multidão azul e branca e tenho literalmente de abrir alas entre tanto pano desfraldado que me abraça.

Os cartazes que durante a tarde quente exibiam palavras de ordem, ganham vida, erguem-se no ar e saiem da boca dos manifestantes ao som de tambores, panelas e muitos apitos. Crianças e velhos, jovens e menos jovens, todos com a mesma determinação na voz, o mesmo olhar fixo sobre o Parlamento Grego. É ali que governo e deputados discutem o novo pacote de privatizações que mais do que os anéis, parece ter que levar os próprios dedos do povo que já se sente a sangrar desde há pelo menos um ano.

Os Gregos até compreendem que ninguém lhes queira dar mais dinheiro, mas sentem que não foram eles que o gastaram mal gasto. Aqui como em Portugal, os que falam comigo em inglês mais ou menos afinado, transmitem a mesma ideia-chave: enganados. “É como se de repente fossemos todos um bando de preguiçosos que não merece as auto-estradas que tem, nem as escolas, nem os hospitais, nem a reforma, nada. Mas não fomos nós que roubámos!” Desabafam.

O Parlamento está transformado em fortaleza, rodeado por largas dezenas de polícias de intervenção. Haverá certamente mais, como de repente acaba por se descobrir quando novas fileiras de guardas começam a descer as escadas laterais do Parlamento. O povo não gosta, pro- testa com urros e palmas das mãos voltadas para a frente em sinal de ‘para trás para trás!’ Tudo se acalma. Sente-se que tudo é incerto, inseguro, mas nada acontece.

A noite vai-se instalando. Quem não se pode queixar são os vendedores ambulantes, com as suas mini-roulotes de comes e bebes. Vendem milho assado, espetadas, frutos secos, e vendem bem, que o estômago tem vida própria e não quer saber se naquelas horas se faz ou não História. Com sorte estão também os vendedores de bandeiras, apitos e outros gadgets de ocasião como os lasers verdes que se projectam nas paredes do Parlamento.

Cada “arruada” de canções termina em palmas e numa quase alegria. Nesta espécie de catarze colectiva, as pessoas que se reconhecem na revolta, no receio e na desesperança, experimentam como que um conforto que lhes retempera as forças.

‘À medida que a noite avança aumentam os cânticos de contestação; diferentes grupos gritam as suas frases de revolta; ao fundo da escadaria da Sintagma, um comício congrega centenas de pessoas que ordeira e silenciosamente assistem, sentadas no chão. Os partidos mais à esquerda estão presentes, assim como diversos sindicatos, mas optam pela discrição, ou seja, não se revelam explicitamente enquanto tal (não há bandeiras nem cartazes), preferindo estar na retaguarda dos movimentos sociais mais ou menos espontâneos com os quais partilham afinidades.

É um jogo de luzes e de sombras que se faz afinal em todo o lado e do qual tomamos consciência mais clara quando falamos com as pessoas. De uma das tendas a cargo de um movimento social, retirei um pequeno poster autocolante. Cansada de não entender o que tento ler, peço a um senhor se o pode traduzir. Não sabe inglês, mas solidariamente cada um dos por ele convocados vai completando a tradução, que por azar nenhum ali é fluente em inglês mas tem vontade de ajudar! Por fim o puzzle completa-se: “nada devemos, nada vendemos, nada pagamos”. É essa a vontade, mas de pouco servirá.

Quem por estes dias for à Praça Sintagma, ao final da tarde, terá esta mesma sensação de que pela força da unidade popular algo de mágico e de libertador pode enfim acontecer. Triste é saber que não acontece.

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