Correio do Minho

Braga,

Povo de Brandos Costumes

Serviços de pagamento: mudaram as regras

Ideias

2010-09-20 às 06h00

Artur Coimbra

Não há dúvida que somos um país de brandos, brandíssimos, costumes. Deixamos que nos calquem, que nos calem, que decidam da nossa vida e das nossas expectativas e não reagimos.
A não ser que se trate de assuntos religiosos ou futebolísticos, que mexem com as mais fundas emoções, e por vezes com a mais primária irracionalidade, os portugueses deleitam-se na maior apatia, no maior comodismo, num conformismo que chega a ser exasperante, paradoxal e absurdo. Será do fado, do destino, da saudade, do que se queira ou não queira. Mas não é coisa que se recomende…

Vejamos.
Há uns dias atrás, mais de um milhão de franceses saiu à rua para protestar contra a subida da idade de reforma dos 60 para os 62 anos, decidida pelo presidente Nicolas Sarkozy e que naturalmente o atira para o seu ponto mais baixo de popularidade. Com Mitterrand, os franceses viram a idade de reforma descer para os 60 anos. Mas o projecto do actual governo ameaça essa conquista social e quer que os cidadãos passem a só poder deixar a vida activa depois dos 62 anos. O plano tem uma execução prevista até 2018 e o argumento é o de sempre, seja em terras gaulesas, seja na Cochinchina: a sustentabilidade do sistema de segurança social e a redução do défice público.

Em Portugal, pelo contrário, as decisões são bem mais gravosas, por parte de um governo que não cumpre promessas eleitorais e que resolveu, contra ventos, marés, promessas eleitorais e direitos adquiridos, aumentar a idade de reforma para os 65 anos, frustrando expectativas de milhares de trabalhadores e inviabilizando a entrada na vida activa de imensa juventude, mais evoluída e qualificada.

Que fizeram os portugueses? Manifestações nas principais cidades? Greves gerais? Cortes de vias-férreas? Marchas de protesto pelo país abaixo? Suicídios? Ameaças de bomba?
Não, que nós somos civilizados. Até de mais. Atropelam-nos os direitos, transformam-nos em títeres nas mãos de interesses não explicados, submetem-nos a decisões que não compreendemos e nós continuamos mudos, serenos e quedos, como se nada fosse connosco, como se a nossa identidade e o nosso modo de ser português fosse chutar a bola para canto e assobiar para o ar. É o nacional-porreirismo no seu esplendor.

Fecham escolas por tudo quanto é aldeia, empobrecendo o território; encerram centros de saúde e serviços essenciais; faltam médicos e desertifica-se o interior, e todos achamos que se trata de uma inevitabilidade, de um custo daquela coisa indefinida chamada “desenvolvimento”, ou “gestão de recursos”, como se governar um país de 10 milhões de habitantes fosse uma questão de régua e esquadro, ou de triunfo da calculadora electrónica. E não é. Porque um país deveria ser, em primeiro lugar, as pessoas. Em segundo, as pessoas e assim sucessivamente, como gostam de proclamar os políticos. Tudo o resto, deveriam ser instrumentos visando a qualidade de vida e a felicidade das pessoas. Mas não é: tem sido para as tiranizar, dominar e deprimir.

Mas nós somos civilizados e não reagimos. Quando muito, debitamos protestos e reclamações no círculo de amigos ou no anonimato da blogosfera.
Adoramos as festas de Verão, as férias, os feriados, os cafés, o futebol, as peregrinações e não estamos para nos ralar com mesquinhas questões de direitos, liberdades e garantias. Coisas de somenos.

Os franceses revoltam-se, manifestam-se, protestam? Problema deles. Nós somos gente de bem, de brandos costumes e não temos nada com que nos preocupar. Por isso, tratamos da nossa vidinha, se possível com muita poesia, neste país que é de loucos e de poetas, como sabemos.
Deixem-me terminar com o poeta Alexandre O’Neill que morreu há duas dezenas de anos e continua a ter tudo a ver com o Portugal de hoje em dia:

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
(...)
Ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
(...)
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

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