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Poupanças das famílias continua a baixar, nada de bom para a economia portuguesa

O Zezinho do vestido

Poupanças das famílias continua a baixar, nada de bom para a economia portuguesa

Ideias

2019-11-09 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

OInstituto Nacional de Estatística (INE) divulgou em recente informe que no 2º trimestre de 2019, a tendência de redução sentida há alguns anos da taxa de poupança (ou aforro) das famílias portuguesas continuou, ou seja, a taxa de poupança baixou para 5,9% do “Rendimento Disponível das famílias», tinha sido de 6,1% no trimestre anterior. Quer dizer, no 2º trimestre de 2019 em cada 100 euros ganhos pelas famílias, sobraram apenas quase seis euros para poupar! E tudo isso, apesar do “Rendimento Disponível das famílias» (ou seja, o saldo das remunerações de trabalho e outros tipos de rendimentos menos os impostos e outros tipos de contribuições) ter subido de 0,7% face ao trimestre anterior, o que significa que as famílias portuguesas têm vindo a consumir mais e mais!
O panorama não melhora se compararmos Portugal com os seus parceiros da zona Euro. Ora, em muitos países europeus com um grau de protecção social semelhante ao português, estranhamente a taxa de poupança das famílias portuguesas se situam mais ou menos abaixo das outras famílias europeias. Assim, temos, em % do Rendimento Disponível – 2018): Grécia (- 6%); Portugal (5%); Espanha (5%); Itália (10%); Irlanda (12%); Zona EURO (12%); Áustria (12%); França (14%); Eslovénia (15%); Holanda (15%), Alemanha (18%) e Suécia (20%). Isto é, em Portugal as famílias poupam menos de metade da poupança familiar na média da Zona Euro! Como o investimento (ou formação bruta de capital fixo) das famílias portuguesas, sobretudo em aquisição de habitação própria subiu de 1,6% e a poupança diminuiu de 0,2%, então, pode-se induzir que no referido trimestre as famílias portuguesas viram diminuir a sua capacidade de financiamento (ou de emprestar para fins de investimento aos restantes sectores da economia, Estado e Empresas) para 1,0% do PIB face aos 1,4% do PIB no trimestre anterior.
Mais, numa economia com menor poupança será de esperar menor investimento e menos investimento deverá implicar em menor crescimento económico sustentado (de longo prazo). Claro que será sempre possível o recurso ao financiamento externo. Mas isto terá os seus custos que podem ser bem elevados. Porquê? Dado que um maior endividamento externo poderá significar no futuro: (a) uma maior elevação do risco de não cumprimento; (b) a adopção de políticas económicas internas e/ou externas restritivas, por exemplo, foi o que sucedeu em Portugal com a imposição externa de um programa de ajustamento orçamental, de austeridade excessiva, a seguir a crise financeira global de 2007/2008. Do exposto, fica claro ser desejável o fortalecimento da poupança interna (das famílias, empresas e Estado, no seu todo). Assim, uma maior taxa de poupança interna deve ser um objectivo económico estratégico por gerar recursos internos passíveis de serem destinados ao investimento produtivo interno (público e privado) e, logo, permitir um crescimento económico mais sólido e com menor dependência de financiamento externo.
Mas, o que poderá então explicar a pouca apetência das famílias portuguesas em poupar ou aforrar?
(1) As taxas de juro nos mercados têm vindo a atingir mínimos históricos;
(2) Há um certo conservadorismo português, de pouco arriscar e de jogar pelo seguro, existindo, por isso, elevada concentração de poupanças aplicadas em depósitos bancários, mas com juros muito baixos há pouco estímulo ao aumento de aplicações em depósitos bancários;
(3) A tendência verificada de redução do regime dos benefícios fiscais da poupança, e, assim, há um menor incentivo à poupança;
(4) O elevado nível de habitação própria (uma das mais altas da Zona Euro) induz a ideia de maior segurança financeira, o que embaça a poupança e estimula o consumo;
(5) Sendo do interesse das famílias em pouparem mais, ou para prevenirem situações inesperadas ou, evitando oscilações indesejáveis do consumo face a ciclos económicos, ou em caso de novas crises económicas e menos rendimento, ou na doença, ou na velhice, ou no desemprego, a verdade, é que as famílias portugueses centradas na ideia de uma protecção social alargada tem vindo a reduzir a sua poupança.
Quer dizer, maiores taxas de poupança ou aforro das famílias portuguesas deve ser um dos objectivos económicos estratégicos da governação portuguesa. Se assim for, poder-se-á esperar mais investimento, mais emprego e mais prosperidade económica e social. Concluindo, “não poupar significa abstrair-se da possibilidade de progresso económico e social, perder autonomia, apresentar maior face a eventualidade de surgimento de novas crises globais”.?

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