Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Poupança pode fazer bem à economia: Então porquê estamos a poupar menos!

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Ideias

2014-05-24 às 06h00

António Ferraz

Nas escolas de economia ensina-se, o que tem a sua lógica, que no curto prazo tanto o consumo como a poupança das famílias dependem antes de tudo do rendimento disponível (isto é, do que sobra dos rendimentos auferidos após dedução dos impostos). Se o rendimento disponível aumentar maior será o consumo das famílias (ou consumo privado) a fim de melhorar o seu padrão de vida, mas também, aumentaria a poupança por motivos de precaução (para enfrentar uma doença, para salvaguardar a velhice, para pôr um filho a estudar, para enfrentar enfim os imprevistos da vida) e vice-versa.

Mas o que nos diz a realidade? Ora, houveram economistas que verificaram que nos anos 1980 de crescimento económico e elevação dos rendimentos, que as famílias em vez de pouparem mais faziam exatamente o oposto passando a elevar o consumo, mas, à custa da redução da poupança (e, para isso, muitas vezes se endividando, assim, em 2013 o endividamento das famílias se situava nos 132% do PIB!).

Este tipo de comportamento das famílias se poderá replicar a partir da crise de 2007/2008 embora num sentido contrário ao visto anteriormente. Assim, em Portugal e até inícios do segundo semestre de 2013 as famílias passaram a consumir menos, é verdade, mas também, fizeram um maior esforço de poupança, essencialmente por “motivos de precaução”, num contexto de forte recessão económica, elevado desemprego e redução de rendimentos.

Desta forma, a taxa de poupança das famílias portuguesas (em % do rendimento disponível) que tinha atingido um mínimo histórico de 5,7% em 2008, o valor mais baixo desde 1999 e justificado pelo nível das contribuições sociais, da convergência de níveis de vida com a Europa e das menores restrições no acesso ao crédito, passou a partir daí a inverter a sua tendência com um claro aumento da taxa de poupança que já se situava nos 11,6% em 2012.

O que explicará este comportamento “contraditório” na poupança das famílias, isto é, que ao reduzir o rendimento disponível passarem a poupar mais? A explicação essencial está no choque das expectativas (ou nos “níveis de confiança”) das famílias fruto da crise e das medidas de austeridade que se seguiram a “ajuda” externa, nomeadamente os “enormes aumentos de impostos” e os cortes em salários, pensões e outras prestações sociais (as expectativas são uma componente altamente volátil na compreensão das alterações do comportamento das famílias mesmo no curto prazo).

Neste “contexto de incerteza elevada” é entendível, por um lado, que o consumo das famílias passe a se acomodar mais ao nível de seu rendimento permanente e não tanto do seu rendimento total, e, por outro, que a taxa de poupança das famílias aumente por motivos de precaução.

O aumento na taxa de poupança das famílias se acelerou ainda mais com a entrada em vigor do “programa de resgate” tendo atingido um pico de 13,6% em junho de 2013 contra os 13,4% no 1º trimestre do mesmo ano e o maior valor desde 1999. Isto como resultado de uma redução acentuada no consumo que mais do que compensou a redução de rendimento (tendo o consumo descido duas vezes mais do que o rendimento disponível).

Para alguns analistas a redução do consumo e o aumento da poupança das famílias num contexto de crise foi considerada como virtuosa: menos consumo, menos importações, melhoria das contas externas e mais recursos internos para financiar o investimento. Ao invés, para outros, foi viciosa: menos consumo, menor procura interna e agravamento da crise.

Contudo, a partir do 3º trimestre de 2013 assistiu-se a uma nítida inversão da tendência passando a poupança das famílias a baixarem de forma continuada, 13,3% no 3º trimestre de 2013 e 12,6% no último trimestre do mesmo ano. Esta evolução de menor da poupança tem vindo a manter-se nos dois primeiros trimestres de 2014. Assim, em fevereiro de 2014 a poupança das famílias já tinha recuado pelo sétimo trimestre consecutivo.

Porquê as famílias portuguesas estão no presente a pouparem menos? Porque estão a consumir mais, voltando o consumo privado a terreno positivo (o que não sucedia desde inícios de 2011) e como efeito da melhoria das suas expectativas (ou dos seus “níveis de confiança”) quanto a evolução da economia: algum crescimento económico, alguma redução do desemprego, o regresso aos mercados financeiros externos e baixa das taxas de juro, etc.). Por consequência estão a poupar menos por motivos de precaução (consumindo mais embora com menos rendimento disponível).

É necessário, contudo, ter muita cautela dado que tais indicadores económicos são ainda muito frágeis, voláteis e, por isso, francamente revertíveis. Assim, qualquer pequena alteração daquelas percepções pelas famílias poderão rapidamente fazer alterar as suas expectativas e, assim, o seu comportamento quanto ao consumo e a poupança. O rendimento disponível das famílias continua a diminuir, a dívida pública mantém-se elevada e, por fim, o fantasma da crise e do desemprego continuam frescos e a pairar no espírito dos portugueses…

Poupar é benéfico para a economia quer por gerar uma almofada financeira para enfrentar períodos económicos menos bons, quer por ser uma fonte de recursos financeiros internos destinado a financiar o investimento produtivo condição necessária para um crescimento económico sustentado (o chamado “ciclo virtuoso da poupança”).

Em suma: a poupança das famílias é benéfica como fonte interna de recursos para financiar o investimento produtivo e, assim, tornando a economia menos dependente do exterior, mas, será altamente perniciosa caso seja exagerada, por estrangular o consumo das famílias, a procura internas e o crescimento económico.

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