Correio do Minho

Braga, terça-feira

Poupança interna muito baixa é uma fragilidade da economia portuguesa

Câmara tira aos bracarenses mais de 3 milhões de euros de IMI

Ideias

2017-05-27 às 06h00

António Ferraz

A poupança interna (das famílias, empresas e estado, no seu conjunto) muito baixa em Portugal tem implicado dificuldades de financiamento da sua economia, sendo mesmo um factor impeditivo de um crescimento económico mais sólido e sustentável. Ora, é este precisamente o tema de um interessante estudo de autoria dos investigadores da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, Alexandre, F., Conraria, L., Bação, P. e Portela, M. (“Poupança e Financiamento da Economia Portuguesa”, APS, 2017). Na citada obra aponta-se para o papel determinante da insuficiência do investimento interno dada a escassez de poupança interna no ainda muito baixo crescimento económico português. Por isso, a economia portuguesa tem estado muito dependente do financiamento e do investimento externo, endividando-se a um muito alto nível. É uma situação bastante limitativa da evolução futura da economia portuguesa, tornando-se imperioso a criação de incentivos à formação de uma maior poupança interna e, logo, de recursos próprios ao financiamento da economia.
Mas porquê Portugal tem tido uma das mais baixas taxas de poupança interna da zona euro? Vejamos, desde os anos 2000, com a entrada no euro, que a nossa economia tem tido muito modestas taxas de crescimento do produto (PIB), o que só se agravou (e muito) com a crise financeira internacional desde 2008. Quer dizer, a economia portuguesa até muito recentemente tem apresentado elevados níveis de défice financeiro (ou necessidade de financiamento) e, como tal, défices da sua balança corrente e de capital. Ou, de outra forma, os sectores internos com défices financeiros (investimento superior à poupança) tem vindo a suplantar os sectores internos com excedentes financeiros (poupança maior que o investimento). Ou seja, no caso português, o excedente financeiro das famílias (sector tradicionalmente aforrador) tem baixado muito, (devido a significativa descida da poupança das famílias) e, desta forma, tem sido insuficiente para compensar o elevado défice financeiro dos sectores deficitários, quer das empresas (financeiras e não financeiras), quer do estado (sectores internos deficitários).
Porém, desde 2014, com a recuperação económica do país (embora suave, com taxas de crescimento real do PIB abaixo de 2%), a que se podem juntar, a emergência de uma poupança positiva e de um excedente financeiro das empresas e a descida do défice orçamental, tem aparecido situações mais favoráveis para a economia portuguesa, poupança interna superior ao investimento interno e saldo positivo da balança corrente e de capital portuguesa.
Concretizando, em 2016 face a 2015, houve um aumento do excedente financeiro da economia portuguesa em 0,5%, para 1,7% do PIB. Este facto resultou, pese embora, a descida da poupança das famílias (12,5% do PIB em 1995 e 4,4% do PIB em 2016) e do seu excedente financeiro (apenas 0,8% do PIB em 2016), por um lado, da melhoria significativa da poupança das empresas financeiras (excedente financeiro de 2,2% do PIB em 2016) e das empresas não financeiras (excedente financeiro de 0,7% do PIB em 2016) e, por outro, da significativa redução do défice orçamental do estado e, logo, da necessidade de financiamento do estado (2,0% do PIB em 2016).
Em suma, (a) quanto às famílias, os factores explicativos para a redução significativa na sua poupança foram, entre outros, as expectativas muito favoráveis face à evolução dos rendimentos futuros, a descida das taxas de inflação e das taxas de juro, o desenvolvimento do sistema financeiro (com a maior facilidade de acesso ao crédito) e o reforço do estado social e da dinâmica demográfica; (b) quanto às empresas, os défices financeiros resultaram de apresentarem poupanças negativas (-10% do PIB em 2008) em resultado da política de forte distribuição de lucros e dividendos à custa da criação de reservas para autofinanciamento, contudo, este cenário mudou recentemente, passando a ter mesmo excedente financeiro (1,7% do PIB em 2016); (c) quanto ao estado, a poupança negativa tem sido constante e significativa, mas, actualmente verifica-se uma melhoria da poupança negativa do estado e, em consequência, assiste-se a uma redução do seu défice financeiro (3,8% do PIB em 2015 e 2,1% do PIB em 2016).
Concluindo, apesar dessa evolução favorável da economia portuguesa, a verdade é que Portugal continua no grupo de países da OCDE com taxas de poupança interna mais baixas. Cabe, assim, a governação portuguesa adoptar medidas visando contrariar tal situação, tais como: (1) criação de estímulos à uma maior taxa de poupança interna, aumento que seja devido sobretudo ao acréscimo do rendimento gerado pelo crescimento das exportações evitando-se assim efeitos imediatos negativos na procura interna; (2) retoma da dinâmica da poupança das famílias que embora positiva, como vimos, encontra-se em queda há algum tempo; (3) geração de estímulos à uma maior poupança das empresas, usando para tal, o regime fiscal ou premiando a não distribuição de lucros; (4) prosseguindo a política de redução do défice orçamental e da dívida pública, desde que não ponha em causa um crescimento económico mais sólido e sustentado no país.

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