Correio do Minho

Braga,

Poupança e crescimento económico

A vida não é um cliché

Ideias

2011-01-28 às 06h00

Margarida Proença

Em meados de Outubro de 2010, o Banco de Portugal divulgou os resultados de um inquérito à literacia financeira no nosso país, que teve pouca, se alguma, repercussão nos media. O inquérito resulta do reconhecimento de que as escolhas dos consumidores, cada vez mais difíceis, dada a multiplicidade da oferta e a insistência dos operadores financeiros, têm não só consequências óbvias na “bolsa” de cada um, como também na estabilidade macroeconómica. Como para tudo, quanto mais se souber melhor.

De acordo com os resultados, o acesso a uma conta bancária, que constitui actualmente um indicador de integração social, é semelhante aos níveis de outros países. A larga maioria dos inquiridos acha que é muito importante planear as despesas familiares, mas aparentemente são pouco sensíveis quer para a importância de comparar produtos financeiros antes de decidir pela escolha de um qualquer, quer para a necessidade de poupar. Cerca de metade das pessoas entrevistadas declararam nada poupar.

Em 2009, a taxa de poupança, em Portugal, era das mais baixas da União Europeia, representando apenas cerca de 10% do rendimento disponível. A Dinamarca, o Reino Unido e a Grécia, entre outros, têm taxas de poupança ainda mais baixas, contrariamente por exemplo aqui à nossa vizinha Espanha.

Um trabalho interessante de N. Alves e F. Cardoso, também da responsabilidade do Banco de Portugal, mostra que a poupança está muito concentrada; 90% da poupança total é feita apenas por 20% das famílias (ou era, uma vez que os dados se reportam a 2005/06). A assimetria da poupança é portanto muito significativa, e está associada a assimetria na distribuição dos rendimentos. A taxa de poupança é crescente com o nível de riqueza.

Ao longo da vida, os padrões de rendimento vão sendo diferentes. Muitos estudos apontam no sentido de que o ciclo de vida justifica que no início da vida activa, quando se começa a trabalhar, quando se casa e se têm filhos, as despesas sejam mais elevadas, os rendimentos de trabalho ainda não atingiram o máximo, e logo a poupança é menor. Em Portugal, os autores encontram evidência de que o rendimento familiar, e em grande medida a despesa, atinge o seu máximo entre os 45 e os 54 anos. A poupança aumenta até aos 55-64 anos, e depois tudo cai - o rendimento, a despesa e a poupança. Comprova-se ainda a relação entre o nível de educação e a poupança .

Desde meados da década de 80, mas principalmente ao longo de toda a década de 90, assistiu-se a uma quebra na taxa de poupança associada à descida das taxas de juro nominais, mas também ao aumento do património das famílias. Desde meados da década de 2000, que as pessoas se entusiasmaram com um quadro aparentemente muito favorável do ponto de vista financeiro, com muitos produtos inovadores no mercado, com modalidades de financiamento muito competitivas e atraentes, e isso tudo levou a uma endividamento cada vez mais elevado e assim à diminuição da poupança. Dado o quadro actual, e as medidas que estão a ser implementadas para controlar as despesas públicas e o défice excessivo, será de esperar que tenham como resultado um aumento da poupança, vista aqui como instrumento de precaução.

Do ponto de vista individual, a poupança é muito importante. Mas em termos macroeconómicos, pode dizer-se embora de uma forma simplista, que não será possível crescer, sem investir, e que não será possível investir sem poupar. O recurso ao financiamento externo não pode continuar a ser solução, de forma alguma.
Trata-se, em suma, do mesmo para todos, incluindo famílias e Estado. Gastar menos e poupar mais. Acho que, na generalidade, ainda não percebemos isto bem.

Apenas como nota final. Pessoalmente, tenho uma dívida enorme para com um colégio privado, onde os meus filhos andaram. Quer a qualidade do percurso académico que fizeram, quanto a qualidade educativa global em todas as suas vertentes, como a ajuda que sempre dispus no contexto por vezes de horários muito difíceis de serem controlados, devo-o sem dúvida alguma a esse colégio.

Mas sem dúvida alguma que a correlação que acima se referiu entre fortes assimetrias na distribuição de rendimento e na distribuição de poupança não permite compreender que o financiamento público destes colégios seja tão elevado quanto tem vindo a ser divulgado. O financiamento público deve estar reservado, fundamental e prioritariamente, para o ensino público.

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