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Pouco é demais

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Pouco é demais

Ideias

2019-12-27 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

As histórias têm o início que quisermos e o fim que soubermos compor. Comecemos o conto hoje, e logo alguém nos diz que a trama já vem de ontem ou de um anteontem com décadas de sedimentos. Culminemos a peça com cena precisa, e outro nos mudará o desfecho com mão de cirurgião, fazendo o pano cair onde não nos dê jeito. Dissonâncias nos detalhes, divergências na interpretação.
Nos seus dezasseis aninhos, Greta poderia ser neta de Nicolas Hulot, activista francês a quem Macron confiou a pasta do Ambiente. O ministério tinha uns modismos, como por cá. Hulot não era propriamente um acabado de chegar ao plateau. Chegou a ministro com obra e manifestos que remontam ao decénio de noventa, no mínimo, e saiu pelo próprio pé, nem ano e meio depois, um semestre antes da menina sueca começar a dar nas vistas. Hulot quis acabar com os glifosatos, e a indústria não deixou. Lá está, as histórias são sempre um bocado mais complexas, mas eu fico-me pelas linhas gerais.
Suponhamos que eu opero com a ideia implícita de que o charivari da Greta dará em nada, isto é, de que ela falhará, como Hulot falhou. Aceitemos que me respondam que a sueca encontra mais audiência do que francês, desconhecido da generalidade dos leitores desta crónica, que me acrescentem que a rapariga tem uma determinação que o adulto nunca revelou. Aceitemos que eu opero com uma pilha de preconceitos, por exemplo, que erradamente confiro mais capacidade de acção a um ministro do que a uma liceal que faz gazeta às sextas, que exalto um cidadão maduro mais do que uma adolescente. Muito bem: que eu me engane! Mas que felicidade! Morra eu de vergonha, afogado em cinismo, mas que o planeta se regenere.
Fica em aberto, porém, a hipótese inversa, ou seja, de que a cruzada empolada da jovem Thunberg possa desaguar num pântano. Eu sei que muitos obstarão que o melhor está para vir, que foi personalidade do ano, antes mesmo de ter capacidade electiva, que subiu à tribuna da ONU e que foi aplaudida, não obstante os raspanetes que passou. Veja-se só: eu até dou de barato que ela venha a ser eleita para o parlamento sueco, em breve, e que, num repente, tenha assento no governo, e que, lá na sua terra, onde tudo corre a energia limpa – dentro da nobre tradição escandinava –, ela empreste o nome a inovações ou conquistas que façam manchetes. E o resto?
No que ao resgate do planeta concerne, dizia Hulot, a 23 de Dezembro, em entrevista ao canal franco-alemão ARTE, que não conheceremos sucesso enquanto não mudarmos de paradigma de produção, à escala global. Não é o único a dizê-lo e não terá sido o primeiro. E já o dizia antes, talvez de modo atenuado, por ainda acreditar um niquinho na auto-regulação do sistema político-industrial vigente. Ilusões! Os glifosatos fazem mal à terra e aos homens? Ah! Mas são bons para o negócio. A produção intensiva esgota os solos? Ah! Mas é boa para o negócio. A sinização da indústria provoca assimetrias e pobreza? Ah! Mas é boa para o negócio. O pouco que cedam é sempre uma ferida nos lucros do capital.
A economia de mercado é um cancro?! Meu deus, onde é que eu já ouvi isto!! Terá sido nos anos setenta, a um comunista empedernido? Precisamos de disciplinar a produção! Mas, e o sacrossanto liberalismo, servido em carcaça aberta de pão branco, entre crostas macias de «menos Estado, melhor Estado»?
Resumindo: se a Greta for um pretexto para não irmos além do G7, actual Bojador, se for uma apólice com cobertura restrita, lá há de vir o dia em que expirará. Aparecerão novos porta-estandartes, mas o cortejo é que não sairá do oito do costume.

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